Blondlot e os Raios N

A história do fisico francês Rene Prosper Blondlot é uma história de auto-ilusão entre cientistas. Como muitas pessoas teem a noção errada de que a ciência é supostamente infalivel e que descobre verdades absolutas, essas mesmas pessoas olham para o episódio de Blondlot na história das Ciências como uma vingança do seu cepticismo excessivo quanto a ela. Pessoas como Charles Fort e os Forteanos adoram histórias como esta, porque é a história de um cientista famoso cometendo um grande erro. Contudo, se uma pessoa compreende devidamente a ciência e os cientistas, o episódio Blondlot indica pouco mais que a falibilidade dos cientistas e da ciência.

Então, o que é Blondlot fez? Afirmou ter descoberto um novo raio, a que chamou raio-N, de Nancy, cidade onde vivia e em cuja universidade trabalhava. Não apenas ele, como dezenas de outros cientistas confirmaram a existência dos raios-N nos seus laboratórios. O problema é que os raios-N não existem. Então como podem tantos cientistas estar enganados? Enganaram-se a eles mesmos, ao pensarem ver algo que não estavam a ver. Eles viram o que queriam ver com os seus instrumentos, não o que realmente lá estava (ou, neste caso, o que não estava).

Os raios-N eram alegadamente radiações exibindo propriedades impossiveis, emitidos por todas as substâncias excepto madeira verde e alguns metais tratados. Em 1903, Blondlot afirmou ter gerado raios-N com um fio quente dentro de um tubo de ferro. Os raios eram alegadamente detectados por sulfito de calcio que brilhava levemente no escuro quando os alegados raios eram refractados através de um prisma de alumínio colocado a 60 graus. De acordo com Blondlot, um estreito fio de raios-N era refractado através através do prisma e produzia um espectro num campo. Eram invisiveis, excepto quando atingiam a palca de sulfito de cálcio. Blondlot moveu a placa junto à abertura por onde os raios-N passariam e quando esta se iluminava isso era devido aos raios-N.

A revista Nature estava céptica em relação às afirmações de Blondlot visto laboratórios da Inglaterra e da Alemanha não conseguirem reproduzir a experiência. Então, Nature enviou o fisico americano Robert W. Wood da Johns Hopkins University para investigar a descoberta de Blondot. Wood suspeitou que os raios-N eram uma ilusão. Usou um "truque sujo" removendo o prisma na máquina de detecção dos raios-N. Sem este a máquina não podia funcionar. Contudo quando o assistente de Blondlot conduziu a experiência seguinte ele encontrou raios-N. Wood então tentou discretamente repôr o prisma mas o assistente viu e pensou que ele estava a retirá-lo. Na próxima experiência o assistente jurou que não conseguia ver raios-N. Mas devia, pois agora o equipamento estava completo. Portanto, ele viu raios quando não devia haver, e não os viu quando eles estariam lá. Porquê? Porque os raios-N não existem. O que é que ele e outros viram? Viram o que queriam ver. Iludiram-se a eles mesmos vendo o que não existia.

De acordo com Martin Gardner, a exposição de Wood levou o cientista francês à loucura e à morte. Mas aqueles que verificaram as experiências eram estupidos ou incompetentes? Não, penso que não. A questão não é inteligência ou estupidez. É psicologia, a psicologia da percepção. Blondlot e os seus seguidores sofreram de "alucinações visuais auto-induzidas." (Gardner, Fads and Fallacies, p. 345 n. 1).

Qual a lição do episódio Blondlot? James Randi escreve

A ciência nem sempre aprende com os seus erros. De visita a Nancy e falando sobre pseudociência, discuti este exemplo e apesar de estar no local que deu o nome aos raios-N, ninguem na assistência alguma vez ouvira falar de Blondlot, nem mesmo professores da Universidade de Nancy!
[ James Randi at Cal Tech]

Penso que o facto de Blondlot não ser recordado em Nancy se deve ao facto de que a ciência aprende com os seus erros. Se Blondlot fosse um pseudocientista e Randi visitasse a Universidade da Pseudociência, era provável que os modernos professores e alunos olhassem Blondlot como um herói e a exposição de Wood como diabólica, desleal e tipica dos preconceitos dos homens da ciência contra o seu trabalho sagrado, etc. Penso que o facto de Blondlot não ser um profeta na sua terra é um sinal saudável de que apesar dos cientistas muitas vezes praticarem erros, mesmo grandes, outros cientistas descobrirão esses erros e colocarão a ciência no caminho certo. Os que pensam que a ciência ou é infalivel ou não é, não teem a minima ideia da natureza da ciência.


James Randi at Cal Tech

Asimov, Isaac, "The Radiation That Wasn't," The Magazine of Fantasy and Science Fiction, March, 1988; tambem em Out of the Everywhere (1990).

Gardner, Martin. Fads and Fallacies in the Name of Science (New York: Dover Publications, Inc., 1957)

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