Pai Natal

Ao contrário do Bigfoot, este gordinho benevolente tem sido mais avistado que todos os ovnis e Virgens Marias juntos. As testemunhas que o veem a afastar-se com as suas renas são legiões. Quem pode duvidar de uma criança? E de milhões de crianças? São fiáveis. Não há prova de que sofram de doenças mentais. Não teem motivo para mentir. A unica explicação é que são genuinas as aparições. Não há razão para pensar que estão combinadas. Se não há nenhuma base para esta crença, porque é que tantos acreditam? Não há hipótese de isto ser um exemplo de reinforço comunal, ou uma falsidade, ou uma ilusão. É real.

Não importa que a crença requeira aceitar a hipótese de que numa unica noite este voador visite todas as casas católicas do planeta. Mesmo gastando um segundo em cada casa, e não perdendo tempo entre casas, necessitaria de anos. É óbvio: acontece um milagre em cada Natal. É a única explicação lógica. Que mais poderia ser?


03 Oct 1996
De: Neil Kitchen

HÁ UM PAI NATAL?

Com ajuda do jornal científico SPY (Janeiro, 1990), tenho o gosto de apresentar o relatório sobre o Pai Natal.

1) Nenhuma espécie conhecida de renas pode voar. MAS há mais de 300.000 espécies de organismos vivos ainda por classificar, e apesar da maioria serem insectos e germes, isto não elimina por completo a possibilidade de renas voadoras.

2) Há cerca de 2 biliões de crianças no mundo (pessoas com menos de 18 anos). Mas como o Pai Natal não aparece (aparentemente) a crianças muçulmanas, hindus, judias e budistas, isso reduz o trabalho a 15% do total - 378 milhões. A uma média de 3,5 crianças por casa, temos 91,8 milhões de casas. Presumimos que há pelo menos uma criança bem comportada em cada.

3) O Pai Natal tem 31 horas para trabalhar, graças às diferenças horárias e à rotação da Terra, assumindo que viaja de este para oeste (o que parece ser lógico). Isto representa 822,6 visitas por segundo. Isto significa que para cada casa com crianças o Pai Natal tem 1/1000 de segundo para estacionar, saltar do trenó, descer a chaminé, deixar os presentes, comer qualquer coisinha que esteja na mesa, voltar a subir a chaminé, saltar para o trenó, e partir para a próxima casa. Assumindo que cada um dos 91,8 milhões de stops estão distribuidos uniformemente (o que sabemos ser falso, mas que aceitamos para efeitos de cálculo), estamos a falar de cerca de 1,25 Km por casa, uma viagem total de 121,5 milhões de Km.

Isto significa que o trenó viaja a cerca de 1045 km/segundo. Para comparação, o veiculo humano mais rápido na Terra, a nave espacial Ulisses, desloca-se a 44 km/segundo - uma rena pode correr a 24 km/hora.

4) O peso do trenó adiciona outro elemento de interesse. Assumindo que cada criança recebe apenas uma caixa Lego média (900 gramas), o trenó carrega 321,300 toneladas, não contando com o Pai Natal, que é sempre descrito como sendo pesado. Em terra, uma rena convencional pode puxar até 135 quilos. Mesmo aceitando que uma "rena voadora" (ver ponto 1) pode puxar DEZ vezes mais, isso não é possivel com oito ou nove renas. Precisamos de 214.200 renas. Isto aumenta a carga - sem trenó - para 353.430 toneladas. Para comparação: isto é quatro vezes o peso do Queen Elizabeth.

5) 353.000 toneladas viajando a 1000 km/segundo cria uma enorme resistência do ar- isto aquece o trenó do mesmo modo que uma nava a reentrar na atmosfera terrestre. O par de renas da frente absorve 14,3 quintilhiões de Joules de energia. Por segundo. Cada. Em resumo, rebentam em chamas quase instantaneamente, expondo as renas de trás, e criando um som ensurdecedor. O grupo de renas vaporiza-se em 0,00426 segundos. O Pai Natal, entretanto, é sujeito a forças centrífugas 17.500,06 vezes a gravidade. Um Pai Natal de 110 quilos (valor que não parece demasiado) seria enterrado no assento do trenó por uma força de 2000 quilos.

Em conclusão, se o Pai Natal alguma vez distribuiu presentes na véspera de Natal, está morto.


Leituras

Carl Sagan, "UFO's: The Extraterrestrial and Other Hypotheses," in UFO's: A Scientific Debate, ed. Carl Sagan and Thornton Page (New York: Cornell University Press, 1972), p. 266.

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