sd.gif (2133 bytes)
Robert Todd Carroll

 the truth is in here!
Dicionário Céptico

Busca no Dicionário Céptico




Busca Avançada

vertline.gif (1078 bytes)

paradigmas e mudanças de paradigma

Um paradigma é um modelo ou exemplo. Um caso paradigmático é o caso típico ou arquetípico. Uma mudança de paradigma é o movimento de um paradigma para outro.

Uma das noções de paradigma é a aquela usada em leis, onde um paradigma é um caso modelo a ser distinguido de casos penumbrais. Uma lei poderia considerar crime usar uma arma. Um caso em que um assaltante usa uma Magnum .357 carregada seria um caso paradigmático; um caso em que um assaltante usa uma pistola de água seria considerado penumbral. Um tribunal teria que decidir se a lei tinha intenção de incluir o uso de pistolas de água como crime, mas não haveria necessidade de interpretação da lei para decidir se o uso da Magnum .357 carregada estava dentro da intenção da legislatura. Paradigma nesta acepção, não possui nenhuma mudança de paradigma correlacionada.

Um uso mais comum de paradigma como modelo seria algo como o paradigma do policiamento, que incluiria as pressuposições, valores, objetivos, crenças, expectativas, teorias e conhecimentos básicos que uma comunidade tem a respeito do policiamento. Muitos modelos, como este do policiamento, surgiram ao longo do tempo como resposta a várias mudanças na sociedade, e não são o resultado de um grande projeto ou plano. Uma mudança de paradigma no policiamento poderia ocorrer lentamente e ao longo de muitos anos, ou poderia ocorrer abruptamente como resultado de uma análise e avaliação consciente do paradigma atual. Um indivíduo ou grupo poderia listar as inadequações, perigos, etc. do paradigma atual, à luz de mudanças relevantes na sociedade, e apresentar um novo modelo de policiamento. Se o novo modelo for aceito pela comunidade, então ocorre uma mudança de paradigma. O novo paradigma substituiria velhos pressupostos, valores, objetivos, crenças, expectativas, teorias, etc. com os seus próprios.

Thomas Kuhn

T.S. Kuhn, em seu Estrutura das Revoluções Científicas (1962), usou o termo 'paradigma' para se referir a estruturas e/ou compreensões do mundo de várias comunidades científicas. Para Kuhn, um paradigma científico inclui modelos como o modelo planetário dos átomos, e teorias conceitos, pressupostos e valores. Para Kuhn, uma noção como a do paradigma científico foi essencial para compor seu argumento alusivo a um aspecto particular da história da ciência, a saber, quando uma estrutura conceitual cede lugar a outra, durante o que ele chamou de revolução científica.

Kuhn acreditava que, durante períodos de "ciência normal", os cientistas trabalham dentro do mesmo paradigma. A comunicação e trabalho científico prosseguem de forma relativamente sem percalços até que ocorram anomalias, ou que uma nova teoria ou modelo seja proposta, exigindo que se entenda conceitos científicos tradicionais de novas maneiras, e que se rejeite velhos pressupostos e substitua-os por novos.

Um paradigma de uma revolução científica no sentido de Kuhn seria a revolução Coperniciana. O antigo modelo da terra no centro da criação de Deus foi substituído por um modelo que colocava a terra como um entre vários planetas orbitando o nosso Sol. Mais tarde, as órbitas circulares, que representavam a perfeição do projeto divino para os céus na antiga visão do mundo, seriam relutantemente substituídas por órbitas elípticas. Galileu encontraria outras "imperfeições" nos céus, como crateras na lua.

Para Kuhn, revoluções científicas ocorrem durante aqueles períodos em que pelo menos dois paradigmas coexistem, um tradicional e pelo menos um novo. Os paradigmas são incomensuráveis, assim como os conceitos usados para entender e explicar fatos e crenças básicas. Os dois grupos vivem em mundos diferentes. O movimento do antigo para o novo paradigma foi chamado de mudança de paradigma.

Se Kuhn estava certo ou errado sobre a história da ciência --e ele teve abundância de críticos-- suas noções de paradigma e mudança de paradigma tiveram enorme influência fora da história da ciência. De muitas maneiras, a forma como Kuhn é compreendido e aplicado é semelhante a como o conceito de Darwin de seleção natural foi mal compreendido e aplicado fora da biologia evolucionária. Para um paradigma deste tipo de aplicação errônea, veja a entrada no Dicionário Céptico sobre programação neuro-lingüística.

Qual é o seu paradigma?

A Amazon.com lista 474 livros com a palavra 'paradigma' no título, a maioria dos quais parecendo usar paradigma com o significado padrão de modelo ou exemplar, como por exemplo, Estereótipos Anti-Semitas: Um Paradigma da Diferenciação na Cultura Popular Inglesa, 1660-1830.

Umas das aplicações mais comuns dos termos paradigma e mudança de paradigma é querendo dizer "modo de pensar tradicional" contra "novo modo de pensar." Alguns pensadores da Nova Era parecem achar que os paradigmas podem ser criados por indivíduos ou grupos, que conscientemente se preparam para criar novos paradigmas. Eles parecem querer dizer com 'paradigma' nada mais que "um conjunto de crenças pessoais," por exemplo, Ensaios Sobre Criação de Relacionamentos Sagrados: O Próximo Passo Para um Novo Paradigma por Sondra Ray, e Manual Para o Novo Paradigma da Benevelent [sic] Energies. Muitos dos promotores da Auto-Ajuda da Nova Era baseiam suas abordagens na noção de que os paradigmas atuais de uma pessoa a estão prejudicando, e tudo o que elas precisam é criar um novo paradigma (conjunto de crenças, prioridades, conceitos, valores, objetivos, etc.) para elas mesmas, que as permita progredir, etc., por exemplo A Conspiração dos Paradigmas: Como Nossos Sistemas de Governo, Igreja, Escola e Cultura Violam Nosso Potencial Humano por Denise Breton e Christopher Largent.

Outros parecem identificar o termo paradigma com teoria, por exemplo, A Assinatura de Lamarck: Como os Retrogenes Estão Mudando o Paragdima da Seleção Natural de Darwin, por Edward J. Steele e outros.

clarividência retroativa

Alguns, como Joel Barker em seu vídeo "O Negócio dos Paradigmas," usam paradigma e mudança de paradigma para explicar por que algumas pessoas ou empresas fracassam e outras têm sucesso. As que têm sucesso são aquelas dispostas a mudar para um novo paradigma; as que falham são as que permanecem inflexíveis e fixadas em idéias tradicionais porque elas se mostraram bem sucedidas no passado, ou porque as empresas não conseguem enxergar a utilidade de alguma nova idéia. Os suíços falharam por não patentear ou comercializar os relógios a quartzo, embora os tenham inventado, porque não souberam mudar paradigmas. Eles não souberam mudar os paradigmas porque não enxergaram que existiria um mercado para outro tipo de relógios além do tipo que eles vinham fabricando e comercializando há gerações. Os japoneses ganharam tanto dinheiro com os relógios a quartzo porque não tinham um velho paradigma, prendendo-os a um modo de pensar, que os impedisse de patentear e comercializar relógios a quartzo.

Este modelo poderia ser chamado de clarividência retroativa porque ele enxerga, sempre e somente após o ocorrido, quem deixou de fazer uma mudança de paradigma e quem se beneficiou por ter tido a perspicácia de tirar vantagem das criações de outras pessoas. Este modelo é inútil para prever quais criações se mostrarão lucrativas e úteis, mas é excelente para retrospectivas. Ele infalivelmente vê que a Xerox não fez uma mudança de paradigma e se deu mal por não dar ênfase ao Ethernet, ou à interface gráfica de usuário ou à impressora a laser, e que a IBM se deu mal quando inicialmente rejeitou a noção de computador pessoal.

Barker foi mais além e agora afirma ser capaz de reconhecer quando paradigmas irão mudar no futuro, e ele também ensina como fazê-lo em seu novo livro Paradigmas: O Negócio da Descoberta do Futuro.

relativismo

Provavelmente a mais séria má aplicação do conceito de Kuhn é a noção de que tudo o que compõe um paradigma é relativo e subjetivo, e logo puramente pessoal, sem nenhuma conexão ou comprovação na realidade. Alguns dos que pensam que o criacionismo e a evolução são paradigmas ou teorias concorrentes cometem este erro. Pode ser verdadeiro que todas as teorias e crenças sejam "subjetivas" mas isto não significa que elas sejam todas igualmente úteis ou prováveis, ou mesmo do mesmo tipo. O fato de que o vermelho e todas as cores sejam "subjetivas" não impediu o desenvolvimento da decoração de interiores, pintura, indústria do vestuário, etc. Ninguém hesita em comprar um carro vermelho com base em que o vermelho e todas as cores são puramente subjetivas. A maioria de nós é capaz de diferenciar o vermelho do azul, mesmo sabendo que nenhum deles existe exceto em nossas mentes, ou na interação subjetiva dos nossos sentidos com os objetos, sob determinadas condições. E a maioria de nós sabe que não há nenhuma comparação e nenhuma competição entre entender o vermelho em termos de comprimento de onda da luz ou entender o vermelho como um símbolo para o amor ou a paixão, ou a crença de que todas as coisas vermelhas são infundidas com o amor divino, e dignas de veneração.

leitura adicional

Adams, James L. Conceptual Blockbusting: A Guide to Better Ideas 3a. ed. (Perseus Press, 1990). $10.40

Hoyningen-Huene, Paul. Reconstructing Scientific Revolutions : Thomas S. Kuhn's Philosophy of Science trad. Alexander J. Levine (University of Chicago, 1993). $22.00

 Kuhn, Thomas S. The Structure of Scientific Revolutions  3a. ed. (University of Chicago, 1996). $10.95

©copyright 2000
Robert Todd Carroll

Traduzido por
Ronaldo Cordeiro

Última atualização: 2001-06-24

Índice