Fraude de Piltdown

Piltdown era um local arqueologico em Inglaterra onde em 1908 e 1912 foram encontrados fósseis de humanos, macacos e outros mamiferos. Em 1913 num local próximo foi encontrado crânio com um maxilar de macaco e um dente canino semelhante aos humanos. Para resumir, os paleontologistas aceitaram a ideia de que tinha pertencido a uma unica criatura que tinha o crânio humano e um maxilar de macaco. Em 1953, o "homem" de Piltdown foi exposto como fraude: o crânio era moderno e o maxilar tinha sido encaixado. Para os cépticos da ciência ao ponto de serem anti-ciência como Charles Fort e os Forteanos, episódios como este provam, que a ciência é treta. Para os que compreendem melhor a natureza e limites da ciência, Piltdown não é mais que um caminho errado numa série de estradas que, apesar de tais desvios, eventualmente chega ao destino certo.

Como é que os cientistas se enganaram e foram enganados? Stephen Jay Gould dá várias razões entre as quais wishful thinking e cultura, que sem duvida desempenhou um papel na falta de pensamento critico entre os paleoantropologistas britânicos. Mas, acima de tudo, a falsificação de Piltdown demonstra a falibilidade a a qualidade humana do conhecimento cientifico. Demonstra, ainda, o modo como teorias e factos estão relacionados em ciência. Teorias precedem factos; são os filtros através dos quais os factos são interpretados. E contudo, os factos precedem teorias; são os factos que as teorias tentam explicar. Gould nota que hoje um crânio humano com um maxilar de macaco é considerado extremamente improvavel. Mas no inicio do século, os antropologistas estavam embebidos do preconceito cultural que considerava que o cérebro do homem era a chave para governar e tendo tornado possivel o desenvolvimento das suas capacidades unicas. Havia a noção pré-concebida de que o cérebro humano tinha atingido o seu tamanho actual antes de ocorrerem outras alterações na estrutura humana. Portanto, um crânio humano com um maxilar de macaco não levantou tantas suspeitas como levantaria hole, quando os registos fósseis mostram uma progressão de hominideos de pequeno-cérebro mas verticais (portanto, não-simio), para humanos de grandes-cérebros e verticais. Os cientistas "modelam os factos" em vez de modelarem as teorias para encaixar os factos, "outra ilustração," diz Gould, "de que a informação nos chega através dos filtros da cultura, esperança e espectativas." [Stephen Jay Gould, "Piltdown Revisited," in The Panda's Thumb, (New York: W.W Norton and Company), p. 118.] Uma vez comprometidos com uma teoria, as pessoas veem o que encaixa nessa teoria.

A principal razão porque Piltdown não foi desmascarado como fraude mais cedo foi devido aos cientistas não terem acesso às "provas," que foram fechadas no Museu Britânico. Em vez de focarem a atenção no exame dos "factos" mais cuidadosamente para descobrir a fraude, não puderam sequer examinar a prova fisica! Tiveram de usar moldes e ficar satisfeitos com rápidos olhares aos originais para comprovar que os moldes eram exactos.

A moral de Piltdown é que a ciência é falível, uma actividade humana que nem sempre toma o caminho mais directo para compreender a natureza. Quando uma anomalia como a descoberta de um crânio humano com um maxilar de macaco ocorre deve-se encaixar numa nova teoria, re-examinar a prova em busca de erros de interpretação, ou mostrar que não é uma anomalia e encaixá-la na teoria existente. O que dirige um cientista pode ter mais a ver com as expectativas pessoais e preconceitos culturais do que uma objectividade mitica atribuivel a uma Teoria Geral da Verdade e Conhecimentos Objectivos.

Mas caracterizar cientistas como um grupo de arrogantes fazendo afirmações que se provam ser falsas, e fazer a caricatura da ciência porque não é infalivel e não chega a certezas absolutas, é uma grave injustiça. Os arrogantes são os que exigem certezas absolutas onde elas não podem ser encontradas; são os que não compreendem a beleza e o valor das probabilidades na ciência. São os que pensam que a ciência é mera especulação porque os cientistas fazem erros, ou cometem mesmo fraudes para confirmar as suas ideias. Os arrogantes são os que pensam que uma especulação é tão boa como outra e não conseguem dizer a diferença entre uma hipótese testável e uma não testáve. Os arrogantes são os que pensam que como os cientistas presentam teorias e os criacionistas e outros pseudocientistas apresentam teorias, todos estão a fazer basicamente o mesmo. Contudo, as ideias não são todas igualmente especulativas, nem são todas do mesmo tipo.

Devido à natureza publica da ciência e à aplicação universal dos seus métodos, e devido ao facto da maioria dos cientistas não serem cruzados dos seus preconceitos não testados como muitos pseudocientistas, os seus erros são descobertos por outros cientistas. Essa descoberta é suficiente para repôr a ciência na rota certa. O mesmo não se pode dizer dos pseudocientistas cujos erros são ou nunca detectados porque as afirmações não são testados ou se os erros são identificados pelos criticos, continuam ignorados pelos seguidores.

Finalmente, outra razão pela qual alguns cientistas foram enganados foi provavelmente porque não eram capazes de considerar alguem que propositadamente fabricasse tal história. De qualquer modo, um dos resultados de Piltdown foi criar uma industria de detectives tentando descobrir o culpado. A lista de suspeitos inclui: Charles Dawson, um  arqueólogo amador que trouxe os primeiros fragmentos do primeiro crânio de Piltdown; Teilhard de Chardin, teólogo e cientista que acompanhou Dawson e Arthur Smith Woodward (Zelador de Geologia no Museu Britânico em 1912) a Piltdown em expedições onde descobriram a mandibula; W.J. Solass, professor de geologia em Oxford; Grafton Elliot Smith, que escreveu o relato da descoberta em 1913; Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes; e agora (Maio 1996) Martin A.C. Hinton, o curador de zoologia ao tempo de Piltdown. Uma arca com as iniciais de Hinton foi recentemente encontrada num sotão de Museu de História Natural de Londres. A arca contem ossos tratados e gravados de modo igual aos fósseis de Piltdown. A evidência em cada caso é circunstancial e não muito forte. Duvido que o caso se possa dar por concluido.

(nota: mais um livro foi publicado sobre Piltdown desde a descoberta da arca de Hinton. Unraveling Piltdown: The Science Fraud of the Century and Its Solution por John Evangelist Walsh (Random House, 1996) aponta o dedo a Dawson mais uma vez.)


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