O Pletismógrafo Penil (PPG)

O pletismógrafo penil é uma máquina para medir mudanças na circunferência do pénis. Uma fita elástica com mercurio no interior é colocada à volta do pénis do sujeito. A fita é ligada a um ecran de video e um gravador de dados. Qualquer mudança no tamanho do pénis, mesmo não sentidas pelo sujeito, são registadas enquanto este vê imagens sexualmente sugestivas ou pornográficas, slides, filmes, ou cassetes de audio com descrições de coisas como crianças a serem molestadas. Programas de computador são usados para apresentar gráficos mostrando "o grau de excitação de cada estimulo." A máquina custa mais de 1.500 contos e foi desenvolvida primeiramente na Checoslováquia para evitar que os jovens que afirmavam ser gays escapassem ao serviço militar. Farrall Instruments Inc., de Grand Island no Nebraska, fabrica o aparelho e em 1993 tinha vendido mais de 400 unidades usadas em mais de 40 estados americanos. Medical Monitoring Systems de New Jersey tambem é um dos principais fabricantes de PPG. Behavioral Technology Inc. em Salt Lake City tambem vende PPG. O aparelho é usado na China, Hong Kong, Noruega, Grã-Bretanha, Brasil e Espanha.

A teoria atrás do aparelho é descrita pelo Dr. Eugenia Gullick

O pletismógrafo . . . mede directamente a evidência exterior da excitação sexual. Sabemos- está estabelecido na literatura que quando um homem se excita sexualmente-- existe alargamento do pénis. É uma relação um-para-um.

Num polígrafo, as respostas galvanicas da pele são medidas, e temos de fazer um salto de lógica para pensar que a resposta se deve a ansiedade, donde a mentira. E é esse salto lógico que leva a uma falta de confiança nesse instrumento...

Sabemos  que quando o pénis cresce, estamos a medir a excitação sexual. Então é muito mais correcto dizer que medimos a pressão arterial. [STATE OF NORTH CAROLINA v. ROBERT EARL SPENCER]

Nisto toda a gente parece concordar: o aparelho mede a variação do pénis. Qualquer macho que acordou de manhã com uma erecção sabe, contudo, que o crescimento do pénis nem sempre é uma medida de excitação sexual. Por outro lado, a maioria dos machos aceita que o crescimento do pénis quando se vê um filme pornográfico é devido a excitação sexual. Vamos aceitar que "quando o pénis cresce, estamos a medir excitação sexual". Que utilidade pode ter tal aparelho?

Dois usos imediatos: detectar falsos gays e o tratamento de culpados por ofensas sexuais. Este é por vezes feito em combinação com terapia da aversão, que envolve "sujeitar o paciente a choques eléctricos ou odores putridos enquanto vê imagens sexualmente sugestivas. A ideia é desinteressar o paciente de tais materiais. E nesse caso, os psicólogos usam o PPG para verificarem se a terapia está a funcionar." ["Monitoring device to treat sex offenders sparks controversy" August 6, 1996]

Submissão ao PPG (como se chama o teste) foi apresentado como condição para libertação condicional de alguns molestadores sexuais. O PPG tem sido usado em casos de custódia de menores (para determinar se o pai poderá ou não abusar da criança) e em decisões de ofensas sexuais. Já foi efectuado em crianças de 10 anos que abusaram de outras. Isto foi feito em Phoenix, Arizona, sem prova de que tenha sido util ou que não fosse prejudicial quando aplicado a crianças. Policias de Old Town, Maine, tiveram de pagar quase um milhão de dólares a um policia que foi ameaçado a tiro por se recusar a submeter-se a um PPG. E investigadores da Universidade da Georgia testaram a afirmação de que homens homofóbicos são homossexuais latentes usando o PPG. No seu estudo de 64 homens exclusivamente heterossexuais (auto-identificados) "66% do grupo não homofóbico mostrou uma não significativa eracção enquanto via um video homossexual masculino. mas apenas 20% dos homofóbicos mostrou pouca ou nenhuma evidência de excitação." ["Study Looks At Homophobic Men"]

Finalmente,

existe uma área em que este aparelho dá uma valiosa contribuição: a de distinguir a impotência orgânica da psicogénica. Isto é feito medindo mudanças na circunferência do pénis durante o sono, com aumentos esperados no sono REM. Homens com impotencia psicogénica mostram erecções, enquanto aqueles com problemas orgânicos não. Funciona. [Dave Bunnell, personal correspondence]

Cientificamente, o que pensar deste aparelho? Bem, a máquina pode medir tempos de resposta a estimulos e pode medir mudanças no pénis ao longo do tempo. Aparentemente, assume-se que quanto mais rápida a erecção e maior o crescimento maior o "nivel de excitação". Aparentemente, tambem é assumido por muitos que qualquer "nivel de excitação" quando vendo ou ouvindo descrições de crianças nuas ou de adultos praticando sexo com menores é um "desvio" Contudo, estudos feitos no PPG mostraram que "muitos dos chamados homens normais que não cometeram qualquer acto sexual ilicito mostram apreciável excitação à apresentação de crianças nuas ou envolvidas em actos sexuais." (e.g. Freund, et al, 1972, Behavior Therapy, #6) E, em um caso em tribunal,  o Dr. Michael Tyson, um psicólogo clinico e forense especializado em comportamento sexual criminoso, testemunhou que "a vasta maioria dos individuos que cometem ofensas sexuais contra crianças não são estimulados sexualmente por materiais envolvendo crianças." O especialista adversário no caso, Dr. Gullick, afirmou que "o pletismografo foi extensivamente estudado e mostrou-se 95% correcto na distinção entre individuos que cometeram ofensas sexuais com crianças e um grupo de controle escolhido ao acaso na população." Ainda, outros especialistas afirmam que "existem estudos em que o aparelho falhou uma vez em cada três na detecção de conhecidos molestadores sexuais testados."

Parece que o aparelho foi bastante testado em muitos estudos cientificos e os resultados foram mistos, para ser delicado. A fiabilidade e utilidade do PPG foi posta em causa no tribunal e declarado inadmissivel devido à sua "fiabilidade questionável". 

Concordamos que as provas apresentadas em tribunal não estabelecem a fiabilidade do pletismógrafo; existem substanciais diferenças de opinião dentro da comunidade científica quanto à certeza do pletismógrafo medir desvios sexuais... [STATE OF NORTH CAROLINA v. ROBERT EARL SPENCER]

O Dr. Tyson testemunhou no caso Spencer que era "geralmente aceite na comunidade de saude mental  quer por apoiantes quer por oponentes do pletismógrafo que os seus dados não dão qualquer prova util para determinar se um individuo cometeu ou não um determinado acto. Tambem notou que "existe um desacordo subsancial quanto à medida em que a resposta do pénis é controlada voluntáriamente". Posto suavemente, o Dr. Tyson afirma que o pletismógrafo tem um muito reduzido valor forense. Parece claro que o PPG não tem valor em tribunal, quer para incriminar, quer para absolver.

Apesar disto, existe toda uma industria de terapeutas que tratam os molestadores sexuais e pensam que o PPG os ajuda a "determinar se alguem que cometeu um crime sexual tem desvios sexuais". Os terapeutas usam o PPG para desenhar tratamentos e medirem o sucesso desses tratamentos. Tudo isto sem nenhuma preocupação  aparente com o facto de não existirem provas de que a excitação sexual ou falta dela perante imagens ou sons se correlaciona significativamente com comportamento sexual criminoso. Não há provas de que uma pessoa que se excita com imagens ou sons tenha mais probabilidades de cometer crimes sexuais do que outra que não excita.Por outro lado, não há provas de que uma pessoa que não se excita com imagens ou sons tenha menos probabilidades de cometer crimes sexuais do que outra que se excita.

Contudo, o PPG pode fornecer informação util a terapeutas de crimes sexuais. O software usado com o PPG permite criar gráficos que indicam se o sujeito é mais excitado por homens ou por mulheres, se por crianças ou adultos, por sexo permitido ou coercivo, etc. A controvérsia começa quando o terapeuta tenta converter isso em coisas como que o molestador está "curado" ou "a responder bem ao tratamento". Isto a juntar à controversia do uso do PPG com a terapia de aversão.

Um problema gritante no uso do PPG é a falta de material padronizado para funcionar como restimulo do sujeito, um factor que claramente altera o resultado. Os terapeutas variam imenso nos materiais. Uns são discretos, adultos nus, crianças em roupa interior ou fato de banho. Outros usam hardcore, incluindo violações e pedofilia. Alem disso, não há um padrão de "desvio" para a excitação. Pior, se os terapeutas podem definir certas excitações como desvio, podem sugerir tratamentos bem como terem o poder de declarar quando o "desvio" está "curado".

Mais questionável que o valor cientifico, são as questões legais e morais que levanta. Algum material é ilegal no mercado pois constitui pornografia infantil. Alguns dos usos levanta questões legais graves. Por exemplo, submeter-se a um PPG como condição para um emprego ou para se alistar no exercito. Algumas instituições obrigam ao teste do PPG como condição para liberdade condicional, sem que a sua utilidade e validade estejam provadas. 

De um ponto de vista cientifico, moral e legal, o que deve interessar é se a pessoa cede a desejos preversos e comete crimes sexuais. Ficar excitado não é crime nem pecado. Mais, ficar excitado não é identico a ter desejo. Um homem ou uma mulher podem ficar excitado vendo animais a copular, uma mulher a comer uma banana, um homem a comer um figo de um modo provocante. E isso não significa que queiram experimentar a bestialidade ou fazer amor com um cesto de fruta. Um heterossexual pode ficar excitar ao ver duas lésbicas a praticar sexo oral, e isso não significa que queira estar com lésbicas. E, se o Dr. Tyson está certo, aparentemente há muitas pessoas "normais" que são excitadas por fotografias de crianças nuas. E há muitos pedófilos que não são excitados por essas imagens. O PPG mede excitação, não desejo. Ou seja, se um terapeuta detecta uma diminuição da excitação não pode afirmar que existe uma diminuição do desejo, que correlacionam com uma menor probabilidade de concretizar esse desejo. A diminuição da excitação não é uma prova da diminuição de cometer um crime sexual. Forte excitação não implica forte desejo pelo que provoca a excitação; e uma excitação fraca não implica um desejo fraco. Nenhum teste pode determinar se a pessoa vai agir com base nas suas sensações e desejos.


Links

"Debatable Device," Stephen J. Adler, Wall Street Journal, February 3, 1993, p. 1.

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