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Robert Todd Carroll

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preces

As mudanças só têm lugar através da ação, não através de meditação e preces. -- Dalai Lama*

Q. "Quando você percebeu que era Deus?"
A. "Quando estava rezando. Percebi que estava falando comigo mesmo."--O 14o. Conde de Gurney (Peter O'Toole), que tinha a ilusão de ser Jesus Cristo em
A Classe Dominante

Preces são uma tentativa de comunicação com seres sobrenaturais (SSs). O uso mais comum da palavra "prece" é para pedir algum favor a um SS. Esse tipo de prece é chamado de prece intercessória porque é feita para se pedir a um SS que interceda em favor de si ou de outra pessoa. Há pessoas que acreditam que tais preces sejam eficazes para curar doenças, reduzir crimes, derrotar inimigos e vencer jogos de futebol na escola. Algumas religiões exigem que os pais abram mão de tratamentos médicos para os filhos em favor das preces, ainda que isso provavelmente se mostre fatal.*  (Essas religiões podem não proibir totalmente o tratamento médico, mas os pais tentam as preces curativas primeiro, prática que às vezes se demonstra fatal para os filhos.) As preces dessas pessoas, no entanto, não são intercessórias, mas sim de total submissão à vontade de um Deus perfeito e todo-poderoso, e em que tudo o que acontece ocorra apenas porque Deus assim o quis. Assim era a crença da fundadora da Christian Science [Ciência Cristã], Mary Baker Eddy (1821-1910), que escreveu Science and Health with Key to the Scriptures [Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras] (1875), a Bíblia da cura pela fé. "Se os doentes se recuperassem porque oram ou alguém ora por eles em voz alta," disse Eddy, "somente os que oram deveriam sarar." *

Para que um SS intercedesse, seria preciso que um ser do mundo sobrenatural fizesse acontecer coisas no mundo natural que não acontecem naturalmente. Isso pode parecer uma boa coisa. Afinal, quem não gostaria de ser capaz de contradizer as leis da natureza sempre que fosse conveniente? No entanto, há pelo menos duas razões para acreditar que implorar para que um SS intervenha no curso natural dos eventos é absurdo.

Os SSs, se existissem, não seriam SSs se qualquer coisa que meros humanos ou outras criaturas terrenas fizessem pudesse agradá-los ou desagradá-los. Epicuro criou um argumento elegantíssimo séculos atrás demonstrando este ponto. Argumentou persuasivamente que os homens criam seus deuses à sua própria imagem, ao invés do contrário (antropomorfismo) e que os deuses não seriam perfeitos se nossos gestos ou apelos pudessem afetá-los de alguma forma. Mary Baker Eddy obviamente concordava com Epicuro. "Deus não é influenciado pelo homem," disse ela. * "Esperamos mudar a perfeição?"* perguntava ela retoricamente.

Em segundo lugar, e mais importante, se SSs pudessem violar as leis da natureza à vontade, o aprendizado humano e a ciência seriam impossíveis. Só somos capazes de compreender o mundo porque o percebemos como ordenado e regulado por leis. Se SSs pudessem intervir na natureza à vontade, a ordem e regularidade do mundo das experiências e do mundo que a ciência tenta compreender seria impossível. Se essa ordem e regularidade fosse impossível, aprender a compreendê-la também o seria.

David Hume criou um elegante argumento sobre milagres, que se aplica às preces intercessórias. Ao se pedir a um SS que intervenha no curso normal dos eventos naturais, pede-se que ele opere um milagre. Como argumentou Hume, acreditarmos que um milagre tenha sido testemunhado é irmos contra toda a nossa experiência de que existe uma ordem e regularidade inexorável percebida pelos nossos sentidos. Todas as nossas regras de raciocínio são baseadas nessa experiência. Teríamos que abandoná-las em favor dos milagres. Da mesma forma, se fosse possível que qualquer evento pudesse se seguir a qualquer evento conforme a vontade de SSs, teríamos que abandonar todas as esperanças de vivenciar, muito menos de compreender, o mundo que percebemos. Só podemos perceber e compreender o mundo se nossa experiência de eventos se seguindo a outros for constante. Caso não se goste da abordagem de Hume, há a de Kant: somente se vivenciarmos os eventos como causais podemos ao menos ter uma experiência.

O teste de hipóteses causais seria impossível se os SSs pudessem interferir no curso regular da natureza. Cientistas testam hipóteses causais. Assim, fazer um teste causal numa prece intercessória, para um cientista, seria absurdo. Então, o que devemos pensar dos cientistas que projetam estudos controlados, duplo-cegos para testar a eficácia das preces intercessórias? Por exemplo, o que deveríamos pensar do estudo de Elisabeth Targ sobre "cura à distância" usando preces? O Instituto Nacional de Saúde concedeu a ela milhares de dólares dos contribuintes para investigar um absurdo (Gardiner 2001). Porém, ela morreu de câncer no cérebro em 2002, antes de concluí-lo. * [O estudo foi desde então desacreditado por Po Bronson, devido a inadequações no escrutínio dos dados. Veja A Prayer Before Dying [Uma Prece Antes da Morte], Wired, dezembro de 2002.]

O estudo de Targ sobre a eficácia das preces na cura de doenças parece se auto-refutar. Se Deus ou algum outro SS fosse responder a preces e curar alguns pacientes e não outros, dependendo de quem recebeu as orações, jamais poderíamos saber se qualquer coisa aconteceu devido a causas naturais ou a intervenção divina. Nenhum estudo causal poderia descartar a possibilidade de seus resultados não terem sido devidos diretamente a um SS interferindo no curso da natureza. Resumindo, não haveria sentido em se realizar estudos causais e portanto não haveria sentido em estudar se as preces são eficazes na cura de doenças.

Há também outros problemas. Aqueles que não são curados podem não ter morrido devido a causas naturais. É sempre possível que algum SS malévolo mas poderoso tenha interferido nos processos naturais e causado as mortes. Uma vez que se tenha introduzido a possibilidade de que SSs sejam a causa de eventos, não há justificativa para se assumir que apenas o Deus judaico-cristão possa ser a causa, ou que Deus somente intervenha quando há preces envolvidas.

Assim, há razões lógicas, científicas e metafísicas para não se investigar seriamente uma idéia como a do poder curativo das preces. A idéia é logicamente contraditória, cientificamente absurda e metafisicamente indigna. Exige que Deus seja perfeito e imperfeito, representa um escárnio da idéia dos testes científicos de causalidade, deprecia o Deus Onipotente e Infinito, se é que tal coisa existe, e ignora a possibilidade de que poderes sobrenaturais menos importantes interfiram de formas desconhecidas na natureza.

Veja verbetes relacionados sobre fraudes piedosas e publicação tendenciosa.

leitura adicional

Randi, James. An Encyclopedia of Claims, Frauds, and Hoaxes of the Occult and Supernatural (N.Y.: St. Martin's Press, 1995).

Randi, James. The Faith Healers (Buffalo, N.Y.: Prometheus Books, 1987).

Randi, James. Flim-Flam! (Buffalo, New York: Prometheus Books,1982).

©copyright 2003
Robert Todd Carroll

traduzido por
Ronaldo Cordeiro

Última atualização: 2008-10-15

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