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Reiner
Rudolph Robert Protsch (von Zieten) (1939-)
O Pildown Alemão

Reiner Protsch von Zieten foi professor de
antropologia da Universidade de Frankfurt por 30 anos
antes de, em desgraça, ser forçado a se demitir. Uma
comissão da universidade revelou que, ao longo da
carreira, Protsch havia plagiado trabalhos de colegas e
sistematicamente falsificado datas de numerosos fósseis
da "idade da pedra", inclusive um fragmento de
crânio - chamado de Homem de Hahnhöfersand - que
supostamente ligaria o ser humano ao Neanderthal.
Protsch (o título honoífico de von Zieten
parece ser falso (Harding
2005)) datou o framento de crânio como de 36.000
anos. Alegou que teria sido encontrado num pântano de
turfa e que seria um elo perdido vital entre o homem
moderno e o Neanderthal. O fragmento tem na verdade 7.500
anos, segundo a unidade de datação radiométrica da
Universidade de Oxford (Harding).
Vários fósseis foram enviados a Oxford em 2001 para
testes de datas, e foi então que o "desastre da
datação" foi descoberto. Protsch havia datado um
esqueleto do sexo feminino como sendo um Neanderthal que
havia morrido perto da cidade de Speyer, no sudoeste da
Alemanha, em cerca de 19.300 A.C. (o esqueleto de
"Bischof-Speyer". A mulher na verdade viveu em
aproximadamente 1.300 A.C. Protsch também havia datado
um crânio descoberto em 1976 próximo a Paderborn como
tendo 27.400 anos, e este foi considerado o resto mortal
humano mais antigo já encontrado na região. Acredita-se
agora que o crânio date de meados do século 18.
"Os novos dados de Oxford estão completamente
errados," disse Protsch ao Der
Spiegel (18 de agosto de 2004). Os
cientistas de Oxford não removeram o preservativo de
goma laca das amostras, afirmou. É por isso que os
fósseis foram datados como muito mais recentes.
"Infelizmente, os arqueólogos e a maioria dos
antropólogos não estudam física ou química, logo não
sabem julgar datações por carbono", disse ele.
"Em todo laboratório fazem-se medições
erradas" (Paterson
2004). Aparentemente, Protsch não percebeu a ironia
em suas alegações.
A investigação da Universidade de Frankfurt sobre
Protsch, que foi suspenso da instituição em abril de
2004*
e mais tarde forçado a se aposentar, foi comandada pelo
professor Ulrich Brandt. Durante a investigação, a
universidade descobriu que Protsch não sabia operar sua
própria máquina de datação por carbono (Harding).
Thomas Terberger, o arqueólogo que descobriu as
fraudes de Protsch, afirmou que "A antropologia
terá que revisar completamente sua visão do homem
moderno de 40.000 a 10.000 anos atrás. Os trabalhos do
professor Protsch pareciam provar que o homem
anatomicamente moderno e o Neanderthal haviam coexistido,
e talvez até tido filhos entre si. Isto agora parece ser
bobagem".
Ao mesmo tempo, o professor
Chris Stringer do Departamento de Paleontologia dao Museu de História Natural
de Londres afirma que o Homem de Hahnhöfersand
nunca foi
considerado um Neanderthal teve ligeira importância
nos anos 1980 para pessoas como Gunter Brauer, que
defendiam um fluxo genético entre o Neanderthal e o
homem moderno. No entanto, como qualquer pessoa
familiarizada com a literatura antropológica dos
últimos 20 anos saberia, a descoberta teve
importância desprezível para os debates recentes.
É preciso dizer que isso também é um reflexo da
má reputação de Protsch na área, como qualquer
pessoa familiarizada com a literatura recente também
saberia (correspondência pessoal).*
Protsch parece ter voltado à Alemanha após obter um
título de doutorado da UCLA, passando então a dedicar
boa parte de sua carreira a falsificar descobertas e
roubar o trabalho de outros. Sua dissertação de
doutorado era intitulada "A datação dos fósseis
hominídeos sub-saarianos do pleistoceno superior e seu
lugar na evolução humana: com implicações
morfológicas e arqueológicas". O título foi
concedido em 1973, mesmo ano em que o departamento de
antropologia da UCLA concedeu o doutorado a Carlos Castañeda.
Segundo o Guardian,
Em um dos casos,
alegou que um "meio-macaco" de 50 milhões
de anos chamado Adapis teria sido encontrado na
Suíça, uma revolução na arqueologia. Na verdade,
o macaco havia sido desencavado na França, onde já
haviam sido encontrados vários outros exemplares.
Além de ser forçado a se aposentar, Protsch está
sob investigação policial por supostamente ter tentado
vender 278 crânios de chimpanzé que pertenciam à
universidade a um comerciante dos EUA. Protsch alega ter
obtido os crânios de um etnólogo de Heidelberg em 1975,
e nega qualquer ato desonesto (Paterson).
O Der
Spiegel também relata que Protsch, filho de um
policial militar nazista, está sob investigação da
Universidade de Frankfurt por ordenar a destruição de
documentos arquivados no departamento de antropologia,
relacionados a experimentos cruéis feitos pelos nazistas
nos anos 1930.
Poder-se-ia conjecturar sobre como ele poderia ter
sustentado as fraudes por tanto tempo, mas o que é mais
importante é que elas foram descobertas por cientistas,
relatadas por cientistas, e serão os cientistas que
irão trabalhar para corrigir os registros. É assim que
a ciência funciona. Às vezes a descoberta é rápida,
como no caso do Archaeoraptor.
Às vezes lenta, como no caso do Piltdown.
Mas a correção, cedo ou tarde, ocorre.
O presidente da Universidade de Frankfurt, Rudolf
Steinberg, pediu desculpas a "todos os que foram
prejudicados por" Protsch e reconheceu que a
administração da instituição havia ignorado a má
conduta do professor por décadas, a despeito das provas
existentes de seus enganos. "Muita gente fez vista
grossa", afirmou. No futuro, disse ele, alunos e
novos empregados serão instruídos sobre o que se
constitui um comportamento científico adequado.
Esperemos que a comunidade antropológica aprenda
também com esse episódio. Nenhum cientista isolado,
não importa qual o seu prestígio, deveria ser
acreditado apenas por sua palavra a respeito da datação
de um fóssil que tenha implicações significativas para
a área. A lição deveria ter sido aprendida com a
fraude de Piltdown. Não será surpresa se for descoberto
que o nacionalismo alemão teve parte no sucesso de
Protsch, como o nacionalismo inglês o teve no caso de
Piltdown.
*nota: Em
um artigo datado de 22 de agosto de 2004, Tony Paterson,
do Telegraph,
citou o Professor Stringer dizendo "O que era
considerado uma prova material importante de que o
Neanderthal teria vivido no norte da Europa perdeu a
validade. Estamos tendo que reescrever a
pré-história". Stringer nega ter feito a
declaração: "Eu me recordo de ter conversado com o
repórter envolvido e, que eu me lembre, as palavras em
questão foram o que ele me disse, perguntando-me se
concordava com a declaração". Stringer também diz
que a citação de Paterson "é uma citação
fabricada, já que eu nunca atribuí grande peso à
importância da descoberta do Hahnöfersand desde o
início. Até onde eu sei, ele nunca foi chamado de
Neanderthal, mas certas pessoas enxergaram
características "mistas" em sua morfologia.
Removê-lo certamente não significa reescrever nada que
eu já tenha dito sobre o Neanderthal, quanto mais
reescrever a pré-história!" (correspondência
pessoal)
Veja verbetes relacionados sobre Piltdown e Carlos Castañeda.
leitura adicional
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