Velikowsky e "Mundos em Colisão"

Em 1950, Immanuel Velikovsky publicou Worlds in Collision, um livro em que afirma, entre outras coisas, que o planeta Vénus era um cometa até tempos recentes. Tal afirmação, assim, não levanta grandes problemas entre cientistas. Contudo, Velikovsky argumenta na base de mitos cosmológicos de povos antigos. Os antigos Gregos, por exemplo, acreditavam que a deusa Athena (que Velikovsky identifica com o planeta Venus) saiu da cabeça de Zeus (que Velikovsky identifica com o planeta Jupiter). Este mito, juntamente com outros da China, India, Egipto, Israel, México, etc., são usados para apoiar a afirmação de que "Vénus foi expelida como uma cometa e passou a planeta após contacto com alguns dos membros do nosso sistema solar."[Worlds in Collision (New York: Dell, 1972), p. 182.]

Velikovsky usa então a sua proposta de Vénus-cometa para explicar acontecimentos relatados no Velho Testamento bem como histórias antigas sobre moscas. Por exemplo,

Debaixo do peso dos argumentos, cheguei à conclusão--acerca da qual já não tenho dúvidas--de que foi o planeta Venus, quando era ainda um cometa, que causou as catastrofes dos dias do Exodus [p. 181]

Quando Venus saltou de Jupiter como um cometa e passou muito perto da Terra, cruzaram influências. O calor interno desenvolvido pela terra e os quentes gases do cometa eram suficientes para fazer os vermes da terra propagarem-se a uma tremenda velocidade. Algumas das pragas (mencionadas no Exodus) como a dos sapos... ou a dos gafanhotos, podem ser atribuidas a tais causas. [p. 192]

A questão coloca-se em saber se o cometa Venus infestou a Terra com vermes que transportou como larvas na sua atmosfera juntamente com gases e rochas. É significativo que em todo o mundo as pessoas associem o planeta Venus com moscas. [p. 193]

A capacidade de muitos insectos e larvas suportarem grandes frios e calores e viverem numa atmosfera desprovida de oxigénio torna não inteiramente improvável a hipótese de que Venus (e tambem  Jupiter, de onde Venus provem)   possam ser povoados por vermes. [p. 195]

Quem pode negar que os vermes têm extraordinarias capacidades de sobrevivencia? Mas viajar à boleia no cosmos é uma classe à parte. Quanta energia é necessária para expelir um "cometa" do tamanho da Terra e que temperatura teria para ter arrefecido até à sua temperatura actual à superficie de 750o K durante os ultimos 3.500 anos? Fazer tais questões é envolver-nos numa discussão cientifica, mas nada encontramos deste tipo de discussão em Worlds in Collision. O que encontramos é mitologia comparada, filologia e teologia, que se juntam para fazer a planetologia de Velikovsky. Isto não significa que o seu trabalho não seja um exercício impressionante e uma demonstração de erudição e engenhosidade. É impressionante, mas não é ciência. Nem mesmo história.

O que Velikovsky faz não é ciência porque ele não começa com o que é conhecido e então usa os mitos antigos para ilustrar ou iluminar o que foi descoberto. Em vez disso, começa por assumir que as leis da natureza podem ter sido diferentes apenas há alguns milénios e que as afirmações dos mitos antigos devem ser usados para apoiar ou desafiar as afirmações da moderna  astronomia e cosmologia. Em resumo, como os criacionistas nos seus argumentos contra a evolução, começa com a assunção de que a Biblia é verdade literal e que o mundo se deve conformar a essas verdades literais. Onde a ciência entra em conflito com o Antigo Testamento, assume-se que a ciência está errada. Velikovsky, contudo, vai muito alem dos criacionistas na sua fé; pois Velikovsky tem fé em todas as antigas lendas, mitos e folclore. Devido à sua aceitação acritica dos mitos antigos, não se pode dizer que esteja a fazer história, também. Quando os mitos podem ser interpretados de modo favorável à sua hipótese, não deixa de os citar. As contradicções dos mitos antigos sobre a origem do cosmos, das pessoas, etc, são coisas triviais para ele.

Se, ocasionalmente, as evidências históricas não encaixam nas leis formuladas, deve-se recordar que uma lei não é mais que uma dedução da experiência, e portanto as leis devem conformar-se a factos históricos, não os factos a leis. [p. 11]

Os discipulos de Velikovsky consideram-no um génio. Se é o caso, é um génial pseudocientista e pseudohistoriador.

Ele é decerto engenhoso. Não só as suas explicações dos paralelos entre mitos antigos é interessante e aparentemente plausível, a sua explicação da amnésia colectiva universal destes mundos em colisão é o que acho mais divertida. Imagine que estamos na terra há 3.500 anos quando um objecto de cerca do mesmo tamanho do nosso planeta se dirige a nós vindo do espaço! Raspa a nossa atmosfera duas vezes, orbita o nosso planeta até que a sua órbita pára e recomeça, causa grande calor e movimentos do nosso planeta e contudo o mais que é recordado destas catastrofes são coisas como "....e o sol parou" [Joshua 10: 12-13] e outras histórias de escuridão, pragas, cheias, etc. Ninguem nos tempos antigos menciona um objecto do tamanho da terra colidindo connosco. Pensaria que alguem entre os povos antigos, que adoravam contar histórias, conte essa história aos seus netos. E alguem a devia ter passado. Mas ninguem na terra recorda tal acontecimento.

Velikovsky explica porque é que os nossos antepassados não recordam essa história num capitulo intitulado "A Collective Amnesia" [p. 302 ff.] Ele volta à velha teoria freudiana da memória reprimida e da neurose. Esses acontecimentos eram demasiado traumáticos e horriveis de suportar, de modo que enterramos a memória dele bem fundo no subconsciente. Os nossos mitos antigos são expressões neuróticas de memórias e sonhos baseados em experiências reais.

A tarefa a que me dediquei é semelhante à do psicanalista que, de memórias dissociadas e sonhos, reconstrói uma experiência traumatica esquecida na vida de um individuo. Na experimentação analitica da humanidade, inscrições históricas e motivos lendários representam o mesmo papel das recordações (memórias infantis) e sonhos na análise de uma personalidade. [p. 12]

Não é de surpreender que quando se pega num livro recente de cosmologia, não se encontre menção de Velikovsky ou das suas teorias. Os seus discipulos acusam este tratamento como prova de uma conspiração da comunidade cientifica para suprimir as ideias que se lhe opõem. O chefe desta conspiração do mal é, dizem, Carl Sagan. Stephen Jay Gould é tambem considerado como fazendo parte da conspiração contra Velikovsky.

Charles Ginenthal escreveu um livro sobre Sagan e Velikovsky afirmando que Sagan fez um ataque sujo ao herói de Ginenthal. Este Ginenthal é parte de outro projecto para atacar a ciência estabelecida como conspirando para arruinar e minimizar Velikovsky: Stephen J. Gould and Immanuel Velikovsky, Essays in the Continuing Velikovsky Affair. O que Sagan fez foi tratar Velikovsky como se fosse um cientista fazendo afirmações cientificas. O que é sujo em Sagan é que ele mostra que os acontecimentos que Velikovsky descreve são extremamente improváveis.

Sagan publicou uma critica às afirmações centrais de Velikovsky cerca de vinte e nove anos depois da publicação de Worlds in Collision [Sagan, pp. 81-127]. Alem das afirmações mencionadas acima, Velikovsky afirma que Venus-cometa tambem causou o Nilo ficar vermelho, produzir terramotos que destruiram edificios egipcios (mas não dos Hebreus). O cometa tambem levou o Mar Vermelho a abrir-se para os Israelitas quando eram perseguidos pelo exército Egipcio, permitindo-lhes escapar. O cometa tambem deixou um rasto de hidrocarbonos ou carbohidratos (o texto difere de uns lugares para outros) no céu, que caiu no deserto durante quarenta anos, fornecendo aos Judeus errantes com o maná dos céus.

De acordo com Velikovsky, o cometa tambem fez a Terra parar a sua rotação (quando Joshua afirmou que o sol parara), ajudando Joshua na batalha. O movimento de Marte é o responsável pela destruição do exército assírio pelos Israelitas. Então, de algum modo, a Terra recomeçou a rodar como antes.

Uma das caracteristicas de uma explicação razoável é ser plausível. Para ser plausível, não é suficiente ser um possivel explicação do acontecido. Em geral tem de estar de acordo com o conhecimento e crenças correntes, com as leis e princípios da área em que a explicação é feita. Uma explicação de como dois quimicos interagem, por exemplo, seria irrazoável se violasse principios básicos da quimica. Esses principios, não sendo infalíveis, foram estabelecidos após gerações de testes, observações, refutações, mais testes, mais observações, etc. Ir contra os principios estabelecidos num campo coloca um grande peso de prova em quem vai contra esses principios. Isto é verdade para todos os campos em que se estabelecem principios e leis. A nova teoria, hipótese, explicação, etc, que é inconsistente com os principios estabelecidos e teorias aceites, tem o ónus da prova. O proponente da nova ideia deve fornecer muito boas razões para rejeitar principios estabelecidos. Isto não se deve a considerar o estabelecido como infalível; é devido a ser o unico modo razoável de proceder. Mesmo se a reoria estabelecida é mostrada como falsae a teoria emergente toma o seu lugar, seria ainda assim irrazoável rejeitar a velha teoria a aceitar a nova na ausência de razões fortes para isso.

De acordo com Sagan, algumas afirmações de Velikovsky violam principios da dinâmica Newtoniana, leis da conservação da energia e momento angular--todos eles firmemente estabelecidos na fisica moderna. Sagan argumenta contra a afirmação de Velikovsky de que Jupiter ejectou um cometa que se tornou Venus examinando a quantidade de energia cinética necessária para um corpo com a massa de Venus escapar à atracção gravitacional de Jupiter. Sagan mostra que a energia cinética necessária aqueceria o cometa a vários milhares de graus. O "cometa" nunca sairia da rampa de lançamento; ter-se-ia fundido! Se o meteoro fundido fosse lançado para o espaço seria como uma chuva de "pequenas particulas e atomos, que não descreve muito bem o planeta Venus."[Sagan, p. 97] Sagan tambem aponta que a velocidade de escape do campo gravitacional de Jupiter requere uma velocidade de pelo menos 60 quilómetro por segundo. Mas se a velocidade fosse superior a 63 km/sec, o cometa sairia disparado para fora do nosso sistema solar. "Há apenas uma estreita intervalo de velocidades consistente com a hipótese de Velikovsky." [Sagan, p. 98] Tal energia é "equivalente a toda a energia radiada pelo sol para o espaço durante um ano, e mil milhões de vezes mais potente que o objecto mais potente até hoje observado... Pedem-nos que acreditemos," afirma Sagan, "sem qualquer prova ou discussão, um acontecimento muito mais potente que qualquer coisa no sol, que é um objecto muito mais energético que Jupiter." [Sagan,m p. 98]

A essência do irrazoável em Velikovsky reside no facto de não fornecer provas das suas afirmações. As suas afirmações baseiam-se na assunção de que os factos cosmológicos se devem conformar à mitologia. Rejeita leis fisicas correntes na base de que não são necessariamente invariáveis. Em geral não oferece suporte para a sua teoria alem de argumentos engenhosos de mitologia comparada. O seu cenário é logicamente possivel, no sentido em que não é auto-contraditório. Para ser cientificamente plausível, contudo, Velikovsky tem de fornecer razões fortes para aceitarmos as suas teorias para lá do facto de ajudar a explicar alguns acontecimentos descritos na Biblia ou que as lendas Maias encaixam nas Egipcias.


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