Zombies e f-Zombies

Zombies são corpos mortos sem alma, criados por magia negra de feiticeiros vodus. Vodu é uma religião com origem no Haiti onde os escravos africanos não podiam praticar abertamente a sua religião e eram forçados a adoptar em publico as práticas dos colonos católicos franceses. O Vodu é ainda popular no Haiti e cidades para onde haitianos emigraram como Nova Orleães. Vodu é uma palavra africana que significa espirito ou deus. A magia negra dos feiticeiros vodus consistia de vários venenos que imobilizavam a vitima durante dias e de alucinogéneos. O resultado eram criaturas com o cérebro danificado usados como escravos pelos feiticeiros, donde os zombies. O zombi não deve ser confundido com o zombi astral, cuja alma (ti-bon-ange) é controlada pelo feiticeiro.

É compreensivel que uma religião praticada debaixo de escravatura dê tanta importância aos espiritos maus. É uma ironia que alguns nessa religião evoluam até adorar o mal e se envolvam em práticas em que não só escravizam outros como manteem a comunidade na linha do medo de se transformarem em zombies/escravos.

Muitas pessoas são cépticas quanto à existência de zombies, o que penso que significa que são cépticos quanto à ideia de uma pessoa morta poder reviver retendo ou não a sua "alma" ou "consciência" ou "espirito." Quando morre, está morto para sempre. Para os que não acreditam que uma pessoa tem alma, a morte não é a separação do corpo e da alma, mas o fim da vida e da consciência. Os zombies vodus não são mortos, mas pessoas com o cérebro danificado.

Há outra espécie de zombi, o zombi filosófico. Um zombi filosófico (f-zombi) seria um corpo humano sem consciência que contudo se comporta como um com consciência. Para alguns filósofos ( Daniel Dennett) isto é uma noção contraditória e portanto um conceito impossivel. Se se comporta como uma pessoa e é indistinguivel de uma pessoa, então é uma pessoa. Outros (como Todd Moody e David Chalmers) argumentam que um f-zombi poderia ser distinguido de uma pessoa mesmo se indistinguivel de uma pessoa consciente. É distinta, dizem estes filósofos, porque se estipula que não é consciente, mesmo se não se distingue de um ser consciente. Em caso de se perguntarem porque é que os filósofos se debatem com esta questão, isso é devido a alguns filósofos não acreditarem que a consciência pode ser reduzida a um conjunto de funções materialistas. Importantes questões metafisicas e éticas se levantam quanto a haver ou não f-zombies. As máquinas podem ser conscientes? Se criarmos uma máquina que seja indistinguivel de um ser humano, será a nossa criação artificial uma "pessoa" com os direitos e deveres de todos nós? Para os defensores dos f-zombies, a consciência é mais que processos cerebrais e funções neurológicas. 

Penso que é possivel conceber máquinas que "percebem" sem terem consciência que percebem. De facto, já existem: detectores de movimento, écrans tácteis, gravadores, alarmes de fumo, alguns robots. Um androide que processe inputs visuais, auditivos, sensoriais, olfactivos e gustativos, mas sem auto-consciência, ou seja, que não teria consciência de perceber, é concebivel. Podemos mesmo conceber tais máquinas a assemelharem-se a humanos. Como distinguiamos estes autómatos de pessoas?

Do mesmo modo que fazemos hoje: pelos faliveis métodos da conversação e observação. A auto-consciência ou a falta dela distinguiria o autómato da pessoa. "Percepção visual " por um detector de movimento é diferente da percepção visual por uma pessoas devido à consciência da percepção. Um detector de fumo pode "cheirar" alguns quimicos, mas não processa odores como uma pessoa o faz. Do meu ponto de vista, o unico f-zombi concebivel seria uma máquina que percebe mas não tem a noção de perceber. Tais máquinas seriam essencialmente distintas de pessoas conscientes.

Ponho-me ao lado de Dennett e dos que pensam que o conceito de f-zombi é um absurdo lógico. Se o "zombi" exibe todos os sintomas de consciência, então o "zombi" inão é um zombi; pois apresentar os sintomas de consciência é ter consciência, o que é negado ao zombi por definição.

Isto lembra-me uma história de Raymond Smullyan, um grande lógico. Um homem quer suicidar-se mas não quer provocar dôr à sua família. Encontra um elixir que o mata, ou seja, separa a sua alma do corpo, mas deixa o corpo intacto para acordar, ir trabalhar, brincar com as crianças, conversar com a mulher. Mas antes de ele tomar o elixir, um amigo bem intencionado injecta-o com o elixir enquanto ele dorme, matando-o, ou seja, libertando a sua alma. O homem acorda e não sabe que está morto (que não tem alma), e toma o elixir. Não se pode matar visto já estar morto. Mas ele pensa que se pode matar e tornar um f-zombi. Contudo, ele já é um f-zombie. Questão: se o f-zombi não pode ver a diferença entre uma pessoas real e um f-zombi, porque pensamos que as pessoas reais podem? De facto, se o conceito de "alma" não faz diferença na distinção entre uma pessoa e um f-zombi, então o conceito de "alma" é supérfluo. Se as pessoas são indistinguiveis de f-zombies então não há dois conceitos distintos, mas um manipulado pela linguagem para nos fazer pensar que existem dois distintos.

Quanto à questão ética de como devemos tratar androides que são behavoristicamente indistinguiveis das pessoas, penso que se estipulamos que tais criaturas são pessoas com direitos, então são pessoas; se não, não são pessoas. O conceito de pessoa não é uma descoberta mas uma estipulação. O mesmo para o conceito de "alma." Mas não é verdade para o conceito de "consciência": quem é consciente deve ser capaz de dizer a diferença entre um corpo morto e uma pessoa viva. Corpos mortos que agem como pessoas, e almas sem corpo que sentem como pessoas conscientes, só existem nos filmes ou nas mentes de alguns filósofos e escritores de fantasias.

Pessoalmente acho que androides auto-conscientes devem ter o estatuto de pessoas com base em que a distinção entre sintético e natural é insignificante. Penso que os crentes em almas discordam e justificariam a criação de uma raça de androides para servir como escravos e serem tratados como coisas.


Links

Vodoun (or Voodoo) Information Pages por Shannon Turlington Settle
Zombies on the web: compilado por David Chalmers
The Unimagined Preposterousness of Zombies por Daniel Dennett
"Self-Ascription Without Qualia: A Case-Study" por David Chalmers
"In Defense of Impenetrable Zombies" por Selmer Bringsjord
"Zombies and the Function of Consciousness" por Owen Flanagan
Neurosciences on the Internet
The Puffer Fish Website

Churchland, Patricia Smith. Neurophilosophy - Toward a Unified Science of the Mind-Brain (Cambridge, Mass.: MIT Press, 1986).
Dennett, Daniel Clement. Brainstorms: Philosophical Essays on Mind and Psychology (Montgomery, Vt.: Bradford Books, 1978).
Dennett, Daniel Clement. Consciousness explained ilustrado por Paul Weiner (Boston : Little, Brown and Co., 1991).
Dennett, Daniel Clement. Kinds of minds : toward an understanding of consciousness (New York, N.Y. : Basic Books, 1996).
Davis, Wade. The Serpent and the Rainbow (New York: Warner Books, 1985). Pelo Carlos Castaneda/Indiana Jones of Harvard. Do livro foi feito um filme em 1988. Leia a critica de Roger Ebert 3-estrelas
Comentários a The Serpent and the Rainbow por Bob Corbett
Davis, Wade. Passage of darkness : the ethnobiology of the Haitian zombie (Chapel Hill : University of North Carolina Press, 1988).
Hofstadter, Douglas R. and Daniel C. DennettThe mind's I : fantasies and reflections on self and soul (New York : Basic Books, 1981).
Ryle, Gilbert. The Concept of Mind (New York: Barnes and Noble, 1949).
Sacks, Oliver W. Awakenings; A leg to stand on; The man who mistook his wife for a hat, and other clinical tales (New York: Quality Paperback Book Club, 1990).

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