Dianética

Em 1950, Lafayette Ronald Hubbard publicou Dianetics:The Modern Science of Mental Health.(Publicado pela The American Saint Hill Organization, Los Angeles. Todas as referências são a essa edição). O livro é a "biblia" da Cientologia, que se autointitula uma Igreja e uma religião. Hubbard diz ao leitor que a dianética "...contem uma técnica terapeutica com que podemos tratar todas as doenças mentais inorgânicas e orgânicas psico-somáticas, com garantia de completa cura...." e que descobriu e demonstrou "A unica fonte de desarranjos mentais...."(p. 6) Contudo, numa declaração no frontispicio do livro, somos informados de que "Cientologia e a Dianética, como praticada pela Igreja... não deseja aceitar individuos que procuram tratamento de doenças fisicas ou insanidade mas dirige-os a especialistas qualificados de outras organizações que tratam desses assuntos." Isto parece claramente um mecanismo protector contra processos de prática de medicina sem licença; porque o autor repetidamente insiste que a dianética pode curar praticamente tudo. Tambem insiste repetidamente que a dianética é uma ciência. Contudo, qualquer um familiarizado com textos cientificos pode dizer a partir das primeiras páginas de Dianetics que o texto não é nenhum trabalho cientifico nem o autor um cientista. A dianética é um exemplo clássico de pseudosciência. E a cientologia um clássico exemplo de fraude construida sobre uma pseudosciência e sustentada pelas desesperadas necessidades e esperanças de pessoas doentes, sós e/ou acriticas.

O nosso interesse aqui não é a cientologia ou os cientologistas. Tanto quanto sei são pessoas bem intencionadas que pensam que estão a fazer a obra de Deus para o beneficio da Humanidade. O que nos interessa é a dianética e a pretenção de Hubbard de que é uma ciência. Examinando esta podemos ver melhor as diferenças entre ciência e pseudociência.

Na página 5 do livro Hubbard diz-nos do que deve ser composta uma ciência da mente: "Uma fonte unica de todas as insanidades, psicoses, neuroses, compulsões, repressões e desarranjos sociais....evidência cientifica da natureza básica e funções da mente humana....a causa e cura de todas as doenças psico-somaticas...." Tambem nota que é irrazoável esperar que uma ciência seja capaz de encontrar uma causa unica de todas as insanidades, visto algumas serem causadas por "cérebros malformados ou patologicamente deformados ou sistemas nervosos" e algumas são causadas por médicos. Sem preocupação por esta aparente contradicão, continua afirmando que esta ciência "deve igualar, em precisão experimental, a fisica e a quimica." Diz-nos então que a dianética é "...uma ciência organizada do pensamento baseada em axiomas definitivos: afirmações de leis naturais da mesma ordem das ciências fisicas...." (p. 6)

Há aqui muitas pistas de que esta chamada ciência da mente não o é, na pretenção de que a dianética é baseada em "axiomas definitivos" e na noção a priori de que deve encontrar uma unica causa de doenças mentais e psicossomáticas. As ciências não se baseiam em axiomas e não podem afirmar conhecimentos a priori do numero de mecanismos causais que devam existir para qualquer fenómeno. Uma ciência é construidas sobre propostas para explicar observações. Conhecimento cientifico de causas, incluindo o numero destas, é uma questão de descoberta e não de estipulação. Tambem, os cientistas respeitam a lógica e teem dificuldade em dizer sem se rirem que uma nova ciência tem de mostrar uma unica causa para todas as insanidades excepto para as que são provocadas por outras causas.

Há mais evidências de que a dianética não é uma ciência. A causa unica de insanidade e doenças psicosomáticas é chamada por Hubbard o engrama. Os engramas encontram-se no seu banco de engramas que se encontra na sua mente reactiva.1 Esta "mente reactiva", diz ele, "pode dar a um homem artrite, bursite, asma, alergias, sinusite, problemas coronários, pressão arterial alta, e todo o catálogo de doenças psico-somáticas, adicionando algumas nunca antes especificadas como psico-somaticas, como a vulgar constipação." (p. 51) Procura-se em vão por provas. É apenas dito: "Isto são factos cientificos. Confirmam invariavelmente com a experiência observada." (p. 52)

Um engrama é "um traço definitivo e permanente deixado por um estimulo no protoplasma de um tecido." (p. 60 nota). É-nos dito que os engramas são apenas gravados durante periodos de dor fisica ou emocional. Durante estes periodos a "mente analitica" fecha-se e a mente reactiva é ligada. A mente analitica tem todo o tipo de capacidades, incluindo ser incapaz de erro. Tem, é-nos dito, bancos de memória standard, ao contrário do banco reactivo. Estes bancos de memória standard gravam todas as percepções e, diz ele, são perfeitas, recordando exactamente o que é visto, ouvido, etc.

Qual a evidência de que os engramas existem e de que estão "conectados" a células durante a dor fisica ou emocional? Hubbard não diz que fez qualquer estudo laboratorial, mas diz que

em dianética, ao nivel da observação laboratorial, descobrimos para nosso espanto que as células são sapientes de um modo actualmente inexplicável. A menos que postulemos uma alma entrando no esperma e óvulo no momento da concepção, isto é algo que nenhum outro postulado explica a não ser que estas células são de algum modo sapientes. (p. 71)

Francamente, esta explicação não me parece feita ao "nivel da observação laboratorial ." Hubbard tenta vestir as suas afirmações metafisicas em paleio cientifico.

As células como unidades teem influência no corpo como um conjunto e um organismo. Não temos de resolver este problema de estrutura para resolver os nossos postulados funcionais. As celulas evidentemente guardam engramas de acontecimentos dolorosos. Afinal, são elas quem fica ferido....

A mente reactiva pode muito bem ser a inteligência combinada das células. Não precisamos de assumir isto, mas é uma teoria estrutural na falta de trabalho real neste campo. O banco de engramas reactivo pode ser material armazenado nas celulas. Não importa se é crível ou incrivel....

Porque é que isto são "factos cientificos"? Hubbard diz apenas que o são e se baseiam em observações e testes, apesar de não haver nenhum trabalho feito neste campo!2

Se se pergunta o que é um engrama, eis como Hubbard descreve "um exemplo de engrama":

Uma mulher é esmurrada. Fica "inconsciente". É-lhe dito que é uma fingidora, que não presta, que está sempre a mudar de ideias. Uma cadeira cai, entretanto. Um carro passa lá fora. O engrama contem um registo de todas estas percepções: visão, som, tacto, cheiro, sensações, cinética, posição, etc. O engrama consiste de tudo o que foi feito quando estava "inconsciente": os tons de voz e a emoção na voz, o som e sensação do murro, o chão, a cadeira a cair, o cheiro da pessoa que bateu ou outros presentes, o som do carro a passar, etc." (p. 60)3

Se ainda não percebeu o que isto tem a ver com insanidade ou doenças psico-somáticas, eis como Hubbard descreve um engrama em acção:

O engrama que esta mulher recebeu contem uma sugestão neurótica positiva....Foi-lhe dito que é uma fingidora, que não presta, que está sempre a mudar de ideias. Quando o engrama é restimulado de uma das maneiras possiveis (ouvir um carro a passar enquanto uma cadeira cai), ela "sente" que não presta, e que está sempre a mudar de ideias.(p. 66)

Portanto, não só aprendemos como um engrama funciona, mas que mudar de ideias é uma neurose!

Hubbard diz-nos que montes de dados foram recolhidos e nem uma excepção foi encontrada. (p. 68) Claro que temos de aceitar a palavra dele, pois os "dados" que ele apresenta são episódicos ou exemplos inventados.

Outra indicação de que a dianética não é uma ciência e de que o seu fundador não faz a mais pequena ideia de como a ciência funciona é dade em afirmações como: "Várias teorias podem ser postuladas sobre como a mente humana evoluiu, mas isso são teorias, e a dianética não se preocupa com estrutura." (p. 69) Isto é a maneira de ele dizer que não o preocupa o facto dos engramas não poderem ser observados, de que mesmo quando são definidos como mudanças permanentes nas células, não se podem detectar nas estruturas fisicas. Tambem não o preocupa que a cura das doenças passe por "apagar" os engramas do banco reactivo. Como pode algo permanente ser apagado? Não o incomodem com questões de estructura! (A resposta dele é que não são realmente apagados mas transferidos para o banco standard. Como isto ocorre, fisica ou estruturalmente é irrelevante! É assim, diz-nos ele. É um facto cientifico. Isto ele diz uma e outra vez.)

Outro "facto cientifico" é que os piores engramas ocorrem no utero. O utero é, afinal, um lugar terrivel. É "molhado, desconfortavel e desprotegido." (p. 130)

Mama espirra, bébé fica "inconsciente." Mama raspa numa mesa e o bébé bate com a cabeça. Papa torna-se mais apaixonado e o bébé tem a sensação de estar numa máquina de lavar. Mama fica histérica, bébé fica com um engrama. Papa bate em Mama, bébé fica com um engrama. Papa abraça Mama, bébé fica com um engrama. E por aí fora. (p. 130)

É-nos dito que as pessoas podem ter "mais de duzentos" engramas pré-natais e que estes engramas "são potencialmente os mais aberrativos, sendo totalmente reactivos. Os recebidos como embrião são intensamente aberrativos. Os recebidos como feto são suficientes para mandar-nos para instituições." (pp. 130-131) Qual a evidência para este non-sense? "Tudo isto são factos cientificos, testados e testados e testados." (p. 133) Pode confiar na palavra de L. Ron Hubbard.

Para se curar das suas doenças precisa de um terapista dianético, chamado um auditor. Quem é qualificado para ser um auditor? "Qualquer pessoa inteligente e possuindo uma persistência média e com vontade de ler este livro, (Dianetics) pode tornar-se um auditor dianético." (p. 173) O objectivo da terapia dianética é conseguir um "libertar" ou um "limpar". O primeiro teve stress e ansiedade removido pela dianética; o segundo não tem doenças ou aberrações psico-somáticas activas ou potenciais. (p. 170) O que se usa para conseguir estas maravilhas é descrito como o uso intensificado de algumas faculdades especiais do cérebro que todos possuimos mas que "por estranho que pareça, o Homem nunca antes descobriu." (p. 167) E contudo, quando Hubbard descreve este sistema em termos que entendamos, simplesmente diz que é como um homem sentar-se junto de outro e falar-lhe dos seus problemas. (p. 168) Portanto, diz ele, isto "cai fora de toda a legislação existente", ao contrário da psico-análise, da psicologia e hipnotismo que "podem de vários modos ferir individuos ou grupos" (pp. 168-169) Não é claro, contudo, porque é que os auditores não podem ferir individuos ou grupos.

Hubbard diz ao leitor que "O propósito da terapia e unico alvo é o remover do conteudo dos engramas do banco reactivo. Num libertar, a maioria do stress emocional é apagado. Num limpar, todo o conteudo é removido." (p. 174) Na verdade é-nos dito (nota de rodapé pag 174), que os engramas são transferidos para o banco standard e não removidos. Suponho que se perguntarmos como nos dizem que é uma questão de "estrutura" e não é importante. Mas parece que isto é apenas outra afirmação que nunca poderá ser empiricamente testada. Áquilo a que Hubbard chama ciência da mente falta um elemento chave que é esperado numa ciência: teste empirico das afirmações. Os elementos chaves da chamada ciência de Hubbard não parecem testáveis, mas ele repete que apenas afirma factos cientificos e dados de muitas experiências. Nem sequer é muito claro o que são os "dados". Como se podem verificar registos de engramas? Como acreditar que um paciente que acredita que foi violado pelo pai aos nove anos ("Grande numero de pessoas doentes afirma isto." p. 144) foi "violada" quando tinha "nove dias após a concepção... A pressão e esforço do coito é muito desconfortável para a criança e normalmente pode-se esperar dar à criança um engrama que contem o acto sexual e tudo o que foi dito." (p. 144)

A dianética exibe vários traços clássicos de uma pseudociência. Enquanto é feito muito esforço para apresentar factos e observações que a suportem, poucas evidências são fornecidas. Muitas, se não todas, as afirmações básicas da dianética são intestáveis. De facto, Hubbard aderte os auditores: "Não avaliem dados....não questionem a validade dos dados. Guardem as vossas reservas para vocês." (p. 300) Isto não soa a um cientista aconselhando os seus estudantes. Isto soa a um guru aconselhando os discipulos.

Há um livro sobre reincarnação publicado pela igreja. É um conjunto de episódios, casos estudados por cientologistas que foram hipnotizados e recordaram vidas passadas. Isto traz uma nova dimensão à procura dos maus engramas. Agora uma pessoa tem de recuar sabe-se lá quantos uteros para encontrar o básico básico que lhe causa os problemas hoja. É capaz de estar a precisar de um empréstimo do seu banco.


31 Dezembro 1997. Os termos do acordo de 1993 entre o IRS americano e a Cientologia foram revelados por Mark Rathbun, director do "Religious Technology Center", pertencente a esta. Há mais de vinte anos que o IRS tentava recusar à Cientologia a isenção fiscal como religião. Os cientologistas responderam com mais de 2.000 processos contra o IRS antes deste ceder e lhe dar o mesmo estatuto dado à Igreja Católica e outras organizações religiosas. Rathbun revelou que a Cientologia pagou ao IRS 12,5 milhões de dólares por taxas anteriores. Em troca, o IRS não só lhe atribuiu a isenção fiscal, como terminou todas as auditorias que estava a fazer à Igreja ou organizações associadas. A juntar ao dinheiro, o IRS obteve a promessa da Cientologia de estabelecer um comité para monitorizar a sua aderência ao acordo e a outras leis! (Pelo menos é assim que o artigo da Associated Press apresenta a questão.) O IRS pode apresentar multas até 50 milhões de dólares se descobrir que algum cientologista está a enriquecer com dinheiro supostamente reunido para actividades não lucrativas.

A Cientologia mantem o seu barco de 440 pés como propriedade isenta de imposto (haverá um Iate Papal?). Melhor que tudo, os seus membros teem deduções fiscais nas despesas com auditores. 

Isto é para rir ou as Finanças americanas passaram-se?


Notas

1. De acordo com Hubbard, a mente tem três partes. "A mente analitica é a porção da mente que percebe e guarda experiências para resolver problemas e dirigir o organismo nas quatro dinâmicas. Pensa em diferenças e semelhanças. A mente reactiva é a porção da mente que arquiva dor fisica e emocional e procura dirigir o organismo sómente pela base estimulo-resposta. Pensa apenas em identidades. A mente somática é a mente que, dirigida pelas outras duas, coloca soluções em prática no nivel fisico." (p. 39).

2. Para seu crédito, Hubbard reconhece que a crença "nenhum registo pode ser feito na mente até os nervos estarem aptos depende de um postulado teórico", i.e., é uma afirmação metafisica e não empirica. Contudo, o seu criticismo desta noção porque "nunca foi sujeita a investigação cientifica" indica que não reconhece a diferença chave entre afirmações metafisicas e empiricas: só as ultimas podem ser sujeitas a investigação cientifica. (p. 127)

3. Martin Gardner nota que ao longo de Dianetics, "Hubbard revela um profundo ódio pelas mulheres....Quando a Mama Hubbard não estava a ser pontapeada pelo seus maridos ou ocupada com os amantes, estava ocupada com tentativas de aborto--geralmente com agulhas de tricotar." Fads & Fallacies in the Name of Science (New York: Dover Publications, 1957), p.267. Gardner dedica o capitulo 22 a expor os traços pseudo-cientificos da dianética.


Links

Atack, Jon. A Piece of Blue Sky : Scientology, Dianetics, and L. Ron Hubbard Exposed (New York, NY: Carol Pub. Group, 1990).

Gardner, Martin. Fads and Fallacies in the Name of Science (New York: Dover Publications, Inc., 1957), capitulo 22.

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