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Robert Todd Carroll

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estatística oculta

A estatística oculta é aquela usada como serviçal da teorização das "ciências ocultas", da mesma forma que a filosofia foi usada pela teologia nos tempos medievais. Mais especificamente, para justificar a crença em seres sobrenaturais e forças ocultas.

Hoje em dia, parapsicólogos, astrólogos, teólogos e outros que procuram por anomalias para guiá-los no caminho da sabedoria transpessoal e da descoberta da verdadeira natureza do universo podem usar computadores para fazer análises estatísticas extremamente complexas de monumentais massas de dados. Quando encontram uma correlação estatisticamente significativa entre duas ou mais variáveis, ficam impressionadíssimos e consideram a descoberta uma prova da existência do oculto ou do sobrenatural. Para o estatístico oculto, não existe uma coisa chamada correlação espúria.

Por exemplo, afirma-se que The Design Inference: Eliminating Chance through Small Probabilities [A Inferência do Design: Eliminando o Acaso Através das Pequenas Probabilidades], de William Dembski, "oferece fundamentação matemática para os tipos de inferências estatísticas que os parapsicólogos usam para identificar fenômenos paranormais. Particularmontmente, o livro mostra como lidar com experiências estatísticas cujos valores de "p" são extremamente pequenos (como os que aparecem regularmente nos experimentos parapsicológicos). Esta obra é claramente relevante para a idéia de sincronicidade de Carl Jung. [Ela] promete colocar a sincronicidade sobre uma base científica sólida" (Rabi Gupta, correspondência pessoal).

De forma semelhante, o projeto de pesquisa de anomalias da Escola de Engenharia de Princeton, liderado por Robert Jahn, reitor da Escola de Engenharia e Ciência Aplicada, alega que, em suas experiências, quando operadores humanos tentam usar a mente para influenciar variados dispositivos mecânicos, ópticos, acústicos e de fluidos, têm-se obtido resultados que não podem ser creditados ao acaso, e que "somente podem ser atribuídos à influência dos operadores humanos."

Legiões de parapsicólogos, lideradas por generais como Charles Tart e Dean Radin, também têm apelado para as anomalias estatísticas como prova da Percepção Extra-Sensorial. A estatística Jessica Utts, da Universidade da Califórnia em Davis, deu seu aval aos estudos do governo dos EUA sobre PES e visão remota. Muitos ocultistas têm alegado que determinados sonhos devem ser clarividentes e não podem ser explicados pela coincidência, por desafiarem as leis da probabilidade.

Não faz muito tempo, astrólogos alegavam que Gauquelin teria encontrado o Santo Graal com suas estatísticas demonstrando o assim denominado "efeito Marte". Mais recentemente, o playboy milionário Gunter Sachs publicou Die Akte Astrologie, que utiliza dados analisados por professores de estatística da Universidade de Munique para provar que a astrologia é real.

Obviamente, a lista poderia ir mais e mais além, e incluir o Código da Bíblia e diversas provas da existência de Deus com base na improbabilidade de que o acaso pudesse explicar a natureza do universo, ou algum aspecto complexo dele, como o código genético.

os céticos não se deixam impressionar

Os céticos não se impressionam com argumentos que atribuam improbabilidade para o que já aconteceu. Qualquer coisa que já tenha acontecido não é, obviamente, um evento impossível. Calcular com precisão as probabilidades de que o código genético ou o universo surjam por "acaso", ou seja, puramente pelas leis naturais, sem terem sido planejados por um ser divino, é impossível. Analogias com um macaco datilografando Hamlet por acaso, ou uma Mona Lisa sendo "criada" pela natureza, são irrelevantes e claramente destituídas de impacto sobre céticos.

Estes também não se impressionam muito com anomalias estatísticas geradas pelos que estão na busca das forças ocultas. Em alguns casos, colegas de parapsicólogos descobriram que foram criadas estatísticas por meio de incompetência ou fraude, como por exemplo nos trabalhos de Walter J. Levy, no Rhine's Institute of Parapsychology (Williams 191, 319). A história da pesquisa da PES é um paradigma da desonestidade e da incompetência (Rawcliffe, Randi), embora deva ser mencionado que os dois principais incidentes de fraude (o de Levy e o de S. G. Soal), embora sob suspeita dos céticos, foram descobertos e relatados por crédulos. Os céticos observaram várias vezes, ao investigar alegações estatísticas de pesquisadores da paranormalidade, que freqüentemente há problemas de validação subjetiva, predisposição para a confirmação, início e fim opcionais, ilusão de agrupamento, falácia regressiva, etc.

Às vezes, as variáveis que estão sendo correlacionadas são definidas de forma vaga ou ambígua, isso quando são definidas, de forma que praticamente qualquer coisa pode servir como apoio à hipótese do oculto. O que é um "grande" atleta ou um "rebelde"? Às vezes, os métodos usados para encontrar padrões são enganosos e inadequados, como, por exemplo, quando se encontram mensagens ocultas em textos. Como observa John Ruscio, "Se você procurar num número fantástico de lugares e contar com qualquer coisa com que se deparar como indício confirmativo, pode-se garantir que irá encontrar algum sentido onde não existe nenhum" (45).

Os céticos notaram que, muitas vezes, algo parece ser estatisticamente improvável quando na verdade não o é. Algumas correlações espúrias se devem à falta de definição clara das variáveis, outras ao cálculo incorreto das probabilidades. Ambos os erros são ocorrências comuns em se tratando dos chamados sonhos premonitórios.

Concluindo, os céticos não se impressionam com anomalias estatísticas artificialmente evocadas porque é normalmente esperado que elas ocorram com alguma freqüência, dado o grande número de tentativas que são feitas.

O correlacionamento de apenas duas dúzias de variáveis umas com as outras produz uma matriz contendo quase 300 coeficientes de correlação. Por convenção, resultados que ocorram num nível esperado pelo acaso em apenas 5% das vezes são chamados de "estatisticamente significativos". Assim, podemos esperar cerca de quinze correlações espuriamente significativas em toda matriz de 300 (Ruscio, 45).

Cada uma dessas correlações espúrias representa uma tentação para que se enxerguem conexões causais onde não há nenhuma, e para que a pessoa se envolva em teorizações post-hoc para explicar forças misteriosas inexistentes.

Veja verbetes relacionados sobre O Código da Bíblia, ilusão de agrupamento, predisposição para a confirmação, PES, Efeito Forer, lei dos grandes números, "Efeito Marte", numerologia, início e fim opcionais, falácia post hoc, falácia regressiva, visão remota e pensamento seletivo.


leitura adicional

Gilovich, Thomas. How We Know What Isn't' So: The Fallibility of Human Reason in Everyday Life (New York: The Free Press, 1993).

Hansel, C.E.M. ESP and Parapsychology: A Critical Re-evaluation (Buffalo, N.Y.: Prometheus Books, 1980).

Hansel, C.E.M. The Search for Psychic Power: ESP and Parapsychology Revisited (Buffalo, N.Y.: Prometheus Books, 1989).

Huff, Daryl. How to Lie with Statistics (W.W. Norton & Company, 1954).

McDonald, John."200% Probability and Beyond: The Compelling Nature of Extraordinary Claims in the Absence of Alternative Explanations," Skeptical Inquirer, janeiro/fevereiro de 1998.

Paulos, John Allen. A Mathematician Reads the Newspaper (Anchor Books, 1996).

Paulos, John Allen. Innumeracy: Mathematical Illiteracy and Its Consequences (Vintage Books, 1990).

Rawcliffe, Donovan Hilton. Occult and Supernatural Phenomena(New York: Dover Publications, 1988).

Randi, James. Flim-Flam! (Buffalo, New York: Prometheus Books,1982).

Ruscio, John. "The Perils of Post-Hockery," Skeptical Inquirer, November/December 1998.

Williams, William F. Encyclopedia of Pseudoscience (Facts-on-File, 2000).

©copyright 2002
Robert Todd Carroll

traduzido por
Ronaldo Cordeiro

Última atualização: 2004-07-25

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