Extraterrestres e OVNIs

OVNIEmbora nada haja de especial em se ser incapaz de identificar algo, incluindo objectos voadores, este termo é usado para referir alegadas naves de origem não terrestre e seres que viajam de outros planetas e galáxias para a Terra.

Dr. J. Allen Hynek, astrónomo e proponente da OVNIlogia--foi ele que prepôs a expressão "encontros imediatos do terceiro grau"--define a OVNIlogia como:

A percepção de um objecto ou luz no céu ou em terra, e cuja aparência, trajectória, dinâmica geral ou comportamento luminiscente, não permite uma explicação lógica convencional,e que permanece não identificada após uma avaliação cuidada das evidências por pessoas tecnicamente cpazes de fazer uma identificação, se tal é possivel .[nota 1]

Um quadro não lisonjeiro de Hynek é dado por James Randi que afirma que Hynek "continuamente recusou debater com J. Klass quer na televisão, quer em pessoa, a questão da verdade sobre discos voadores. Sem oposição é um orador convincente. Nunca saberemos como se aguenta com um oponente informado."[nota2] Mas passemos da pessoa Hynek e consideremos a sua definição. A maior parte dela é evidente por si mesma. As pessoas veem coisas no céu e não conseguem explicá-las por meios convencionais. Estas coisas voam e são não identificadas. Mas a parte que admite discussão é a que afirma que permanece um mistério após uma avaliação cuidada das evidências por pessoas tecnicamente cpazes de fazer uma identificação. Aqui começa o problema: o que Hynek considera as evidências pode ser muito menos do que um céptico consideraria razoável.

As evidencias dos ovnilogistas consistem de: (1) o testemunho de pessoas que afirmam ter visto extraterrestres e/ou naves extraterrestres; (2) factos sobre o tipo de pessoas que dão os testemunhos; (3) a falta de testemunhos contrários ou provas fisicas que, ou expliquem o avistamento por meios convencionais (balões meteorológicos, meteoros, reflexos de luz, etc.) ou ponham em causa a idoneidade do testemunho; e, (4) alegada fraqueza nos argumentos dos cépticos contra os ovnilogistas. O ultimo item é irrelevante para a questão mas tem um papel desproporcionado na argumentação ovnilogista.[nota 3] A tática de atacar os argumentos e motivos de um opositor, em vez de apresentar provas positivasde defesa de um ponto de vista, é comum em discussões, e não é surpresa que seja usada pelos defensores do oculto. O filosofo Paul Feyerabend fez carreira atacando argumentos contra a astrologia, medicina não convencional e pseudociência.[nota 4] Claro que não é errado atacar os argumentos de um oponente e expor as suas falhas. Mas a refutação não substitui o suporte. É uma lógica errada concluir que, como posso mostrar que as razões para a sua crença falham, as minhas crenças ficam provadas como válidas. As minhas razões podem ser tão erradas ou mais que as suas. Não fico bonito ao provar que você é feio. Posso ser tão ou mais feio do que você.

Outra tática comum é a tentativa de reforçar a sua posição afirmando que a oposição não pode provar o contrário. Com os Ovnis há dois momentos. Um é afirmar que nenhuma explicação lógica existe porque algum ovnilogista, cientista, piloto, ou psicólogo consegue encontrar nenhuma. O outro é apontar a falta de provas em contrário: não há testemunha visual que contradiga o avistamento, não há provas de que não fossem extraterrestres ou naves alianigenas. Aqui também há um erro lógico. O facto de qualquer génio não conseguir uma explicação é irrelevante para saber se a explicação correcta é serem visitantes do espaço. A escolha não é (A)sabemos que esta explicação convencional é correcta OU (B)os extraterrestres visitaram-nos. Se justificamos tudo o que nos baralha dizendo "foram os extraterrestres" até onde nos leva esta lógica? Porque não Deus, o Diabo, Santo António, Cavaco Silva?

Parece-me mais razoável acreditar que (A) a unica razão porque não consigo explicar um avistamento é porque não tenho todos os dados, do que acreditar que (B) o avistamento foi de um ovni. Se tivessemos todos os dados seriamos provavelmente capazes de explicá-lo por meios convencionais. O facto de você não conseguir provar que eu não sou um extraterrestre não suporta de nenhum modo a hipótese de eu não o ser.

Se uma pessoa razoável pretende acreditar em ovnis tem de ser pelas declarações de uma testemunha, não porque ela ou um cientista não conseguem encontrar uma explicação lógica ou devido à fraqueza dos ataques dos cépticos. A prova relevante fica no que a testemunha afirma ter visto e quem essas pessoas são.

Muitos ovnilogistas pensam que visto testemunhas como Whitley Streiber (autor de Comunhão) ou Betty e Barney Hill[nota 5] não são doentes ou diabólicos, não podem ser enganados. Não percebo isto, quando qualquer pessoas sã, boa, normal é enganada acerca de muitas coisas, a começar por ilusionistas de circo. Se é razoável aceitar o testemunho de uma pessoa normal, sem motivo a posteriori, de algo facilmente comprovável, não se segue que, a não ser que se prove que essa pessoa é louca, se deva acreditar no seu testemunho acerca de um acto extraordinário. Quando a afirmação envolve o incrivel, provas adicionais são requeridas. Condenava um paraplégico com base no testemunho de um colega seu que afirmava tê-lo visto voar nu com asas de anjo e roubar a bolsa a uma velhinha? Pensava antes que o seu colega está a cometer uma maldade, ou que se enganou, antes de pensar que um paraplégico pode abrir asas e voar.

O que faz um crente em visitas de extraterrestres perante um relatório da Força Aérea americana (Projecto Blue Book) que afirma que "após vinte e dois anos de investigação...nenhum dos objectos não identificados investigados apresentou qualquer ameaça à nossa segurança nacional"? Dizem, Aha! Isto é o que eles querem que a gente acredite! Que faz um crente em ovnis quando lhe é apresentado o Relatório Condon?[nota 6] Aparece perante o Congresso dos EUA e, como cientista que pensa que o governo americano devia dar mais dinheiro para a pesquisa ovni, desacredita o relatório.

A maior parte dos objectos voadores não identificados são posteriormente identificados como acontecimentos astronómicos (cometas, meteoros, etc.), aviões, satélites, balões meteorológicos ou fraudes. Após estudos da Força Aérea americana, menos de 2% das manifestações relatadas permanecem por identificar. Seria provável que, com mais dados, esses 2% pudessem ser identificados como acontecimentos naturais.

Há duas razões principais que explicam a razão porque tantos cientistas acreditam nos relatos sobre ovnis. Por um lado os observadores são muitas vezes pessoas credíveis e por outro lado nenhuma explicação lógica parece aceitável. Os sujeitos são credíveis porque são médios, decentes, ou não médios, como pilotos ou cientistas sem desejo de fama ou fortuna. As pessoas inteligentes costumam pensar que só os estupidos podem ser enganados e iludidos e que se uma pessoa é de confiança os seus testemunhos tambem. Se é verdade que é justificado duvidar do testemunho de alguem que tem algo a ganhar com isso (nem que seja apenas fama e reconhecimento), não é verdade que devamos acreditar no testemunho de alguem só porque nada tem a ganhar com isso. Um observador incompetente, enganado, iludido, bebedo, não pode ser acreditado, mesmo que esteja puro como uma nascente de montanha. O facto de uma pessoa ser decente e amável e nada ter a ganhar mentindo não a torna imune ao erro na interpretação das suas próprias percepções.

A razão porque nenhuma explicação lógica parece credivel é, provavelmente, porque os que escrevem ou leem os relatórios não querem ouvir ou não querem fazer esforços para encontrar uma. De qualquer modo, o facto de pilotos ou cientistas afirmarem que não conseguem encontrar explicações lógicas para uma observação, não é prova de que tenham observado um artefacto não-humano..

OVNIlogia é a mitologia da era espacial. Em vez de anjos...agora temos...extraterrestres. É o produto da imaginação. Serve uma função poética e existencial. É a expressão da nossa fome de mistério...a nossa esperança de um significado transcendente. Os deuses do Monte Olimpo foram transformados em viajantes espaciais, transportando-nos pelos nossos sonhos para outras paragens--Paul Kurtz

Finalmente, podemos perguntar-nos porque é que os OVNIs são quase sempre observados por pessoas não treinadas e quase nunca por profissionais ou astrónomos amadores, que passam boa parte do tempo a observar o céu.


Links


Notas

  1. J. Allen Hynek, The UFO Experience: A Scientific Inquiry (Chicago: Henry Regnery, 1972), p. 10.
  2. James Randi,  Flim-Flam (Buffalo, New York: Prometheus Books,1982), p. 83.
  3. Um exemplo deste tipo de aproximação é  Jerome Clark, autor de vários livrose artigos sobre OVNIs. Ver "UFO Reporter: The UFO Abduction Enigma," em Fate, Julho 1989, publicado posteriormente em Paranormal Phenomena (San Diego: Greenhaven Press, 1991) como "Psychological Explanations Are Inadequate."
  4. Ver Feyerabend, Paul K., Against Method, rev. ed. (London; New York: Verso, 1988) e Farewell to Reason (London; New York: Verso, 1987).
  5. Os Hills afirmam ter sido raptados por extraterrestres em 19 de Setembro de 1961. Recordam a sua história sob hipnose alguns anos após o rapto. Barney afirma que os extraterrestres recolheram uma amostra do seu esperma. Betty afirma que lhe enfiaram uma agulha no umbigo. Betty, mais tarde, levava pessoas à zona de aterragem do OVNI onde só ela via os extraterrestres e a sua nave.
  6. Edward U. Condon era o responsavel de uma equipa cientifica contratada pela Força Aéres dos EUA para examinar a questão dos OVNIs. O relatório comcluiu que "nada adveio dos estudos dos OVNIs nos ultimos 21 anos para o avanço do conhecimento cientifico... mais estudos sobre a hipotese OVNI não podem ser justificados na expectativa de avanços futuros para a ciência."

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