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Robert Todd Carroll

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psicocinese (PK)

Psicocinese é o processo de mover-se ou afetar-se de alguma outra forma objetos físicos usando-se apenas a mente, sem nenhum contato físico.

Uri Geller, por exemplo, alega poder entortar chaves e colheres, além de parar relógios com o pensamento. Outros alegam ser capazes de fazer lápis rolarem sobre uma mesa por um simples ato de vontade.

A variedade dos truques de mágica usados para demonstrar poderes psicocinéticos é impressionante.

Os cientistas vêm investigando a PK desde meados do século 19, mas têm tido pouco sucesso em demonstrar que alguém possa mover mesmo uma pluma sem usar truques que consistam em coisas tão simples e óbvias como soprar sobre os objetos para movê-los.

Embora existam incontáveis relatos minimamente plausíveis a respeito de astros da ESP, há muito poucos que aleguem ser superstars da PK. Uri Geller é um deles. Outro é Ted Owens (1920-1987), que encontrou seu Boswell [N.T. de James Boswell, famoso biógrafo] no parapsicólogo Jeffrey Mishlove. The PK Man [O Homem PK] é onde Mishlove descreve Owens como um homem com poderes paranormais extraordinários, mas que muitos outros chamariam de enganador e necessitado de cuidados em saúde mental. O autor reconhece a 'personalidade difícil' de Owens, mas não o desacredita porque "temos muito o que aprender sobre a interligação entre a doença mental e a paranormalidade" (Mishlove 2000: 87). (O que você pensaria de um homem que aparecesse numa conferência científica puxando um carrinho infantil vermelho cheio de recortes de jornal sobre suas façanhas paranormais, que se declarasse "o embaixador terrestre supremo das inteligências dos OVNIs", e falsamente alegasse ter fornecido "centenas de demonstrações" de seus poderes de PK a cientistas? Mishlove diz ter estado presente em 1976 quando Owens fez exatamente isso como orador convidado numa conferência realizada pelo Institute for Parascience, em Londres, na Inglaterra (Mishlove 2000: 18).

Segundo Mishlove em "a verdadeira história do domínio da mente sobre a matéria," Owens alega ter experimentado a levitação espontânea por diversas vezes, e ter sido abduzido por alienígenas que operaram seu cérebro para que pudessem comunicar-se com ele telepaticamente. Isto supostamente teria auxiliado esses seres em seu projeto de monitoramento da Terra (Mishlove 2000: 14, 15). O livro How to Contact Space People [Como Contactar Pessoas do Espaço] de Owen, publicado pela Saucerian Books em 1969, descreve os alienígenas apresentando-se como insetos com a aparência de gafanhotos (dois dos quais são chamados Twitter e Tweeter). Teve muitos encontros com esses seres, aos quais se refere como "inteligências espaciais" (IEs). Alega que as IEs o escolheram para uma grande missão e, para demonstrar que estava dizendo a verdade quando alegava ser responsável por coisas como a aparição de OVNIs, tempestades, queda de aviões, cortes de energia e outros desastres. (A última pessoa escolhida, segundo Owens, foi Moisés.)

Mishlove começou a acreditar nos poderes de Owens em 1976, quando era estudante de graduação na Universidade da Califórnia em Berkeley e visitou Hal Puthoff e Russell Targ no Stanford Research Institute, onde trabalhavam com visão remota.1 Segundo Mishlove, Owens havia

enviado a Puthoff e Targ uma carta. Nela dizia, "Olhem aqui, caras, só para provar que eu sou mesmo o maior paranormal do mundo, vou acabar com a seca que está assolando vocês na Califórnia". E havia realmente uma grave seca na época. Disse ele, "Vou fazer chover, nevar, cair granizo e flocos de gelo. Vocês verão todo tipo de evento climático, haverá apagões e avistamento de OVNIs. E seu jornal local vai apresentar uma reportagem de primeira página proclamando que a seca acabou".

Em três dias, tudo isso aconteceu. (VIRTUAL U WITH DR. JEFFREY MISHLOVE) Veja também o cap. 2 de The PK Man.

Moro na Califórnia desde 1954 e posso atestar que tivemos uma seca nos anos 1970, mas secas não terminam em três dias. Se isso fosse tudo o que Owens fez, não se destacaria de outros paranormais que fazem todo tipo de predição sobre o terremotos, enchentes, incêndios, celebridades e o clima da Califórnia. Owens, no entanto, alegou não só prever o tempo como provocá-lo. Mishlove colecionou diversos relatos e alguns depoimentos (muitos dos quais fornecidos pelo próprio Owens) testemunhando a capacidade do paranormal de fazer trovejar e relampejar à sua vontade. Owens às vezes alegava poder afetar o tempo e outros eventos através de seus poderes de PK, e às vezes que IEs realizavam seus pedidos depois que ele os comunicava telepaticamente do que queria que fosse feito.

Talvez seja digno de nota o fato de que Owens tenha trabalhado para o parapsicólogo J. B. Rhine (1895-1980) em 1947 (Mishlove 2000: 50). Embora Rhine fosse capaz de reconhecer poderes paranormais em um cavalo, aparentemente não encontrou nada em Owens sobre o que valesse a pena escrever.

A versão do próprio Mishlove sobre o que poderia estar acontecendo com Owens, os IEs e a aparente PK é ainda mais estranha do que a do próprio paranormal.

Alguns acreditam que os OVNIs sejam criados diretamente por nossas mentes, enquanto que outros crêem que são criados por uma mente sobrenatural que reflete nossos desejos e simbolismos arquetípicos inconscientes de volta para nós. Outros ainda acreditam que os fenômenos sejam extradimensionais, e que entrariam neste mundo através de um processo psíquico estabelecido pela mente. Se esta teoria for correta -- como acredito que ao menos em parte seja -- não há razão para rejeitar a possibilidade de que um OVNI possa ser trazido à existência pelo processo criativo da uma mente individual.

Owens aparentemente possuía impressionante capacidade de PK muito antes de suas experiências com OVNIs. Assim, ele próprio pode ter sido responsável por eles -- e não vice-versa! (Mishlove 2000: 80).

Sim. E Mishlove poderia mesmo ser um gafanhoto alienígena manifestando-se como um investigador parapsicológico! Muitas coisas estranhas são possíveis quando se aceita o princípio da plenitude e rejeita-se a navalha de Occam.

Dean Radin

Dean Radin alega ter obtido resultados impressionantes em PK com pessoas usando a mente para tentar afetar o resultado de lançamentos de dados, mas admite não poder ter certeza de que os resultados não se devem a precognição (Radin: 1995). Talvez os dados tenham consciência e estejam enviando mensagens telepáticas aos sujeitos. Isto ao menos seria coerente com o princípio da plenitude.

Radin também impressionou-se muito com os trabalhos de Robert Jahn e seus colegas de Princeton. Não descobriram ninguém que pudesse mover uma pluma por nem mesmo um centímetro usando apenas o poder da mente, mas encontraram uma "estatística anômala" em dezenas de milhões de tentativas de se afetar os resultados de um gerador de eventos aleatórios. Em resumo, incapazes de achar qualquer pessoa com poderes psicocinéticos demonstráveis, os parapsicólogos nos dizem que há dois tipos de PK, macro e micro. O que o resto do mundo chama de psicocinese eles agora chamam de macro-psicocinese, e vão então estudar micro-PK e procurar por pequenas diferenças estatísticas entre seus (numerosíssimos) dados e o que seria esperado pelo acaso.

Radin pensa haver "implicações teóricas fantásticas" nos trabalhos de Jahn (Radin 1995: 129). Na minha opinião, uma dessas implicações é de que a vivência, como a conhecemos, seria impossível. Se a mente das pessoas fosse capaz de ter efeito direto significativo sobre os eventos, não poderia haver nenhum fluxo coerente de eventos, e nenhuma noção de causalidade como uma sucessão regular de eventos. Mas Radin e outros que fazem esses experimentos, como Helmut Schmidt, presumem que, como estão testando intenções mentais, estão medindo intenções mentais. O que estão fazendo é (a) pedindo a pessoas que façam um esforço para causar um determinado evento com o pensamento e (b) medindo então as diferenças entre o previsto pelo acaso e o resultado real. Assumem que a diferença se deva a algum tipo de interação mente-matéria.

Se esses experimentos são tão fantásticos, por que a comunidade científica continua a ignorá-los e por que não há mais pessoas sabendo da existência deles? A resposta de Radin é que existe "um desconforto generalizado em relação à parapsicologia". Além disso, afirma que "a natureza insular das áreas científicas" dificulta a aceitação dos trabalhos dos parapsicólogos por parte dos outros cientistas. Pode haver outra razão pela qual esses estudos são ignorados pelo restante da comunidade científica. São pouco impressionantes. Vejamos os trabalhos do próprio Radin nesta área.

Segundo Radin, entre 1935 e 1987 houve 148 experimentos com lançamento de dados por 52 investigadores. Isto resultou em 73 publicações com 2.569 participantes e 2,6 milhões de lançamentos. De 124 estudos analisados, 31 eram estudos de controle e consistiam em 150.000 lançamentos nos quais nenhuma influência mental foi tentada (Radin usa a palavra "aplicada" em lugar de "tentada" -- indicando sua presunção de que ocorria a influência mental).

Radin e Diane Ferrari fizeram uma meta-análise dos experimentos com dados e descobriram que os estudos de controle resultaram em 50,02% (chances contra o acaso de 2 para 1), mas os estudos experimentais (onde a foi tentada a influência mental) resultaram em 51,2% (chances de um bilhão para 1, segundo Radin). Os resultados foram publicados no Journal of Scientific Exploration, “Effects of consciousness on the fall of dice,” [Efeitos da consciência sobre a queda de dados] 1991 (Radin 1997: 134).

Radin alega que outras análises demonstraram que os resultados não se deviam a apenas poucos investigadores, nem que se deviam à seleção de apenas estudos com resultados positivos para a meta análise, nem que se deviam ao efeito gaveta, embora não diga como calculou que seriam necessários 17.974 estudos engavetados para cada estudo publicado para tornar os dados nulos. Assim, diz ele, se os dados não podem ser satisfatoriamente explicados pela sorte, pelo efeito gaveta, pela qualidade deficiente dos estudos ou pelo pequeno número de investigadores, então provavelmente se devem ao fato de a mente ter um pequeno efeito sobre a matéria.

Entretanto, os experimentos com dados foram avaliados criticamente por Edward Girden, do Brooklyn College. Radin faz uma discreta referência ao trabalho de Girden citando-o em nota de rodapé, juntamente com o relatório de G. Murphy sobre um artigo de Girden sobre psicocinese (veja Radin 1997, página 133, nota de rodapé 23, onde se lê: “Em 1989, experimentos com dados haviam sido revistos e criticados numerosas vezes ao longo dos anos, mas a despeito de toda a experimentação e revisão não havia surgido nenhum consenso"). Esta parece ser a maneira de Radin de admitir que nem todos concordam com sua rósea análise, mas sem entrar em detalhes com respeito às preocupações de Girden. Felizmente, C.E.M. Hansel (1989) o faz. “Apenas um dos primeiros experimentos [1934-1946] empregou uma série de controle" e este experimento "não ofereceu nenhuma evidência de psicocinese, mas sim claras evidências de que o dado era viciado, já que tendia a cair com a face com o número 6 para cima, fosse isso desejado ou não" (Hansel 1989: 172). Entre as investigações posteriores, de 30 estudos, 13 foram positivos e o restante não produziu resultados acima do esperado por acaso (Hansel 1989: 174). Girden também aplicou critérios que Rhine e Pratt (Parapsychology 1954) haviam dito que seriam condições para um teste de PK conclusivo -- ter dois experimentadores, aleatorização verdadeira dos alvos e registro independente dos alvos, acertos e erros -- e sob estes critérios "nenhum dos 13 testes que apresentavam evidências positivas da psicocinese podiam ser considerados conclusivos, enquanto que várias dentre as 17 outras investigações que não ofereceram essas evidências satisfaziam as exigências" (Hansel 1989: 174).

Veja também mágica, PEAR, Projeto Alfa, Uri Geller, pensamento mágico, mentalistas, psi presumido, e telecinese.

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   1 Para um relato detalhado da incompetência do trabalho de Puthoff e Targ veja o capítulo 13 de The Search for Psychic Power: ESP and Parapsychology Revisited, de C.E.M. Hansel (Prometheus Books, 1989). Veja também os capítulos 2, 3, e 13 de The Psychology of the Psychic, de David Marks (Prometheus Books. 2000) e o capítulo 7 de Flim-Flam!, de James Randi (Prometheus Books, 1982). Após a leitura desses relatos a respeito do trabalho feito por Puthoff e Targ, o leitor irá entender por que Randi se refere a eles como O Gordo e o Magro (Laurel & Hardy) do Psi!

leitura adicional

Alcock, James E. 2003. Jean Burns e Anthony Freeman.  Editores. Psi Wars: Getting to Grips with the Paranormal Imprint Academic.

Christopher, Milbourne. 1970. ESP, Seers & Psychics Thomas Y. Crowell Co.

Gardner, Martin. 1957. Fads and Fallacies in the Name of Science Dover Publications, Inc.

Hansel, C.E.M. 1989. The Search for Psychic Power: ESP and Parapsychology Revisited. Prometheus Books.

Hansen, George P. 2001. The Trickster and the Paranormal Xlibris Corporation,

Hines, Terence. 2003. Pseudoscience and the Paranormal 2nd ed.  Prometheus Books.

Hyman, Ray. 1989. The Elusive Quarry: a Scientific Appraisal of Psychical Research. Prometheus Books.

Marks, David. 2000. The Psychology of the Psychic. Prometheus Books.

Mishlove, Jeffrey. 2000. The Pk Man: A True Story of Mind over Matter. Hampton Roads Publishing Company.

Radin, Dean. 1997. The Conscious Universe - The Scientific Truth of Psychic Phenomena. HarperCollins.

Randi, James. Flim-Flam! 1982. Prometheus Books.

Randi, James. 1982. The Truth About Uri Geller. Prometheus Books.

©copyright 2005
Robert Todd Carroll

traduzido por
Ronaldo Cordeiro

Última atualização: 2005-09-08

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