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hipnose

1810 Sibly - Key to Physic

A hipnose é um processo que envolve um hipnotizador e uma pessoa disposta a ser hipnotizada. O estado hipnótico é geralmente caracterizado por (a) concentração intensa, (b) relaxamento extremo, e (c) alta sugestionabilidade.

Sua versatilidade é ímpar. Ela é praticada em ambientes sociais radicalmente diferentes: salões, clínicas, salas de aula e delegacias de polícia. Hipnotizadores de salão geralmente se apresentam em bares e casas noturnas. Seus pacientes geralmente são pessoas cujo conceito de diversão consiste em reunirem-se com dezenas ou centenas de pessoas num local onde o principal agente de coesão social é o álcool. Os pacientes dos hipnotizadores clínicos são geralmente pessoas com problemas, que ouviram dizer que a hipnoterapia é útil no alívio da dor ou para se superar um vício, ou uma fobia, etc. Outros usam a hipnose para recuperar lembranças reprimidas de abuso sexual ou de vidas passadas. Alguns psicólogos e hipnoterapeutas a utilizam para descobrir verdades ocultas da consciência normal, acessando a mente inconsciente, onde essas verdades supostamente residiriam. Finalmente, alguns pacientes da hipnose são pessoas que foram vítimas ou testemunhas de um crime. A polícia as incentiva a submeterem-se à hipnose a fim de ajudá-las a recordar detalhes de suas experiências.

Hipnose: a visão comum desafiada

A visão que as pessoas comumente têm da hipnose é de que ela seja um estado alterado de consciência, semelhante a um transe. Muitos dos que aceitam essa idéia também acreditam que a hipnose seja uma forma de se obter o acesso a uma mente inconsciente, repleta de lembranças reprimidas, personalidades múltiplas, inspirações místicas, ou recordações de vidas passadas. Essa visão da hipnose como um estado alterado e como portal para conhecimentos ocultos sobre o "eu" e sobre o universo é considerada um mito por muitos psicólogos. Existem dois aspectos distintos, porém relacionados, dessa visão mística da hipnose: o mito do estado alterado e o mito do reservatório oculto.

Aqueles que defendem a teoria do estado alterado muitas vezes citam estudos que mostram que, durante a hipnose (1) os estados elétricos do cérebro mudam, e (2) as ondas cerebrais são diferentes das que ocorrem na consciência desperta normal. Os críticos da visão mística argumentam que esses fatos são irrelevantes para estabelecer a hipnose como um estado alterado de consciência. Poderíamos, da mesma forma, chamar os atos de sonhar acordado ou de espirrar de estados alterados, já que nessas experiências apresentam-se alterações elétricas no cérebro e mudanças nas ondas cerebrais, em relação à consciência desperta normal.

Os que defendem a teoria do reservatório oculto inconsciente apóiam sua crença em relatos de numerosas pessoas que, quando hipnotizadas, (a) recordam-se de eventos de suas vidas presentes ou passadas, dos quais não têm nenhuma lembrança consciente, ou (b) relatam estar em locais distantes e/ou épocas futuras.

A maior parte do que se sabe sobre a hipnose, ao contrário do que se acredita, veio de estudos sobre os pacientes hipnóticos. Sabemos que há uma correlação significativa entre ser imaginativo e responder à hipnose. Sabemos que os propensos a fantasias são provavelmente também excelentes pacientes hipnóticos. Sabemos que imagens vívidas aumentam a sugestibilidade. Sabemos que os que acham a hipnose uma bobagem não podem ser hipnotizados. Sabemos que os pacientes da hipnose não são transformados em zumbis e não são controlados pelos hipnotizadores. Sabemos que a hipnose não melhora a exatidão da memória de nenhuma forma especial. Sabemos que uma pessoa hipnotizada é bastante sugestionável e que a memória pode ser facilmente "completada" pela imaginação e por sugestões feitas sob hipnose. Sabemos que a confabulação é bastante comum durante a hipnose, e que muitos dos estados americanos não aceitam testemunhos induzidos pela hipnose, por serem intrinsecamente não confiáveis. Sabemos que o fator que melhor prevê a resposta à hipnose é o que a pessoa acredita a respeito dela.

A hipnose em seu contexto sócio-cognitivo

Se a hipnose não é um estado alterado nem um portal para uma mente inconsciente mística e oculta, então o que é? Por que tantas pessoas, inclusive as que escrevem livros de psicologia ou verbetes de enciclopédias e dicionários, continuam a perpetuar a idéia mística da hipnose como se fosse um fato científico? Por um motivo: a mídia perpetua esse mito através de incontáveis filmes, livros, programas televisivos, etc., e existe uma tradição estabelecida entre os hipnoterapeutas que têm fé no mito, fazem dele seu sustento e vêem muitos efeitos nas sessões que, em seu ponto de vista, só podem ser chamados de "sucessos". Eles têm até numerosos estudos científicos que apóiam suas opiniões. Psicólogos como Robert Baker acreditam que tais estudos são tão válidos quanto os que davam respaldo à crença no flogisto ou no éter. Baker afirma que aquilo que chamamos de hipnose é, na verdade, uma forma de comportamento social aprendido.

O hipnotizador e o hipnotizado aprendem o que se espera deles de acordo com os respectivos papéis, e reforçam um ao outro com suas representações. O hipnotizador fornece as sugestões e o paciente responde a elas. O restante do comportamento --a repetição de sons ou gestos por parte do hipnotizador , sua voz suave e relaxante, etc., assim como a postura semelhante a um transe ou repouso semelhante ao sono, etc., por parte do paciente-- são apenas encenação, parte do teatro que faz com que a hipnose pareça misteriosa. Despindo-se essa roupagem dramática, o que resta é algo bastante trivial, mesmo se extraordinariamente útil: um estado auto-induzido e "psiquificado" de sugestibilidade.

O psicólogo Nicholas Spanos concorda com Baker: "os procedimentos hipnóticos influenciam o comportamento indiretamente, alterando as motivações, expectativas e interpretações do paciente." Isso não tem qualquer relação com levá-lo a um transe ou exercer controle sobre a mente inconsciente. A hipnose, segundo Spanos, é um comportamento aprendido, que surge de um contexto sócio-cognitivo. Podemos obter os mesmos resultados de diversas formas: indo à universidade ou lendo um livro, fazendo cursos de treinamento ou ensinando uma nova habilidade a alguém, ouvindo palavras de estímulo ou dizendo-as a nós mesmos, freqüentando cursos de motivação ou simplesmente criando voluntariamente uma determinação para atingir objetivos específicos. Em resumo, o que se chama de hipnose é um ato de adequação social, e não um estado de consciência específico. O hipnotizado age de acordo com as expectativas que têm do hipnotizador e da situação hipnótica, e comporta-se da forma que acha que se espera que uma pessoa se comporte quando hipnotizada. O hipnotizador age de acordo com as expectativas que tem do paciente (e/ou da platéia) e da situação hipnótica, comporta-se da forma que acha que se espera que uma pessoa se comporte quando faz o papel do hipnotizador.

Spanos compara a popularidade da hipnose com o fenômeno do século dezenove que hoje chamamos de mesmerismo. Além disso, traça uma analogia entre as crenças na hipnose e na possessão demoníaca e exorcismo. Cada uma delas pode ser explicada nos termos de um contexto sociocognitivo. Os conceitos de papéis dos participantes em todas essas crenças e comportamentos são aprendidos e reforçados nos respectivos ambientes sociais. São dependentes do contexto e da disposição por parte dos participantes de representar seus papéis. Dentro de um quadro social, havendo pessoas suficientes oferecendo suficiente respaldo, praticamente qualquer conceito ou comportamento pode ser ardorosamente defendido como um dogma pela comunidade científica, teológica ou social.

E.M. Thornton, também psicólogo, estende a analogia entre a hipnose, o mesmerismo e o exorcismo. Defende que o que se pede aos hipnotizados é basicamente que representem "o que realmente equivale a uma paródia dos sintomas epilépticos." Se algum paciente hipnotizado ou mesmerizado parece possuído é porque a possessão envolve um contexto sócio-cognitivo semelhante, uma representação de papéis e uma relação de afinidade semelhante. As crenças centrais diferem entre si, e a idéia dominante de um estado alterado, ou magnetismo animal, ou de demônios invasores, dão às experiências suas características distintas. No fundo, porém, hipnose, mesmerismo, histeria ou possessão compartilham o mesmo fundamento: tratam-se de construções sociais arquitetadas principalmente por terapeutas entusiasmados, artistas e religiosos de um lado, e por pessoas sugestionáveis, imaginativas, desejosas, fantasiosas, com profundas necessidades ou capacidades emocionais de outro.

hipnose: o bom, o mau e o feio

Freud, o padrinho da repressão, sabiamente abandonou o uso da hipnose nas terapias. Infelizmente, no entanto, ela continua sendo usada numa ampla variedade de contextos, nem sempre benéficos. Usá-la para auxiliar pessoas a parar de fumar ou manter uma dieta pode ser útil e, mesmo se não der certo, provavelmente não será prejudicial. Usá-la para ajudar pessoas a recordar placas de carros usados em crimes pode ser útil e, mesmo se não der certo, provavelmente não será prejudicial. Usá-la para ajudar vítimas ou testemunhas de crimes a recordar o que aconteceu pode ser útil, mas pode também ser perigoso devido à facilidade com que o paciente pode ser manipulado por sugestões do hipnotizador. Hipnotizadores policiais excessivamente determinados podem colocar sua convicção na culpa daqueles que pensam ser culpados acima da convicção honesta, gerada por provas honestas apresentadas a um júri. A hipnose também é perigosa no ambiente policial devido à tendência de muitos policiais de acreditar em soros da verdade, detetores de mentiras, e outras formas mágicas e fáceis de se obter a verdade.

Usar a hipnose para ajudar pessoas a recuperar lembranças de abuso sexual por parte de seus parentes próximos ou por alienígenas em naves espaciais é perigoso e, em alguns casos, claramente imoral e degradante. Às vezes, a hipnose é utilizada para incentivar o paciente a se recordar e então passar a acreditar em eventos que provavelmente nunca aconteceram. Se essas lembranças não fossem de eventos tão horríveis e dolorosos isso causaria menores preocupações. Mas, ao nutrir ilusões de males sofridos, os terapeutas freqüentemente causam danos irreparáveis aos que depositam neles sua confiança. E o fazem em nome de curar e tratar pessoas, assim como faziam os padres do passado quando caçavam bruxas e exorcizavam demônios.

Veja verbetes relacionados sobre abduções alienígenas, estados alterados, exorcismo, memóriamesmerismo, distúrbio da múltipla personalidade, Bridey Murphy, Terapias da Nova Era, regressão a vidas passadas, lembranças reprimidas, terapia das lembranças reprimidas, Charles Tart e a mente inconsciente.


leitura adicional

Baker, Robert A. They Call It Hypnosis [Chamam-na Hipnose] (Buffalo, N.Y.: Prometheus Books, 1990).

Loftus, Elizabeth F. Eyewitness Testimony [Testemunho Ocular] (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1979).

Schacter, Daniel L., editor, Memory Distortion: How Minds, Brains, and Societies Reconstruct the Past [Distorção da Memória: Como Mentes, Cérebros e Sociedades Reconstroem o Passado] (Harvard University Press, 1997).

Schacter, Daniel L. Searching for Memory - the brain, the mind, and the past [Em Busca da Memória - o cérebro, a mente e o passado] (New York: Basic Books, 1996). Resenha

Spanos, Nicholas P. e John F. Chaves, editores Hypnosis: the Cognitive-behavioral Perspective [Hipnose: a Perspectiva Cognitivo-comportamental], (Buffalo, N.Y.: Prometheus Books, 1989).

Spanos, Nicholas P. Multiple Identities and False Memories: A Sociocognitive Perspective [Múltiplas Identidades e Falsas Lembranças: Uma Perspectiva Sociocognitiva] (Washington, D.C.: American Psychological Association, 1996).

Spanos, Nicholas. "Past-life Hypnotic Regression: A Critical View [Regressão Hipnótica a Vidas Passadas: Uma Visão Crítica]," Skeptical Inquirer 12, no.2 (Winter 1987-88) 174-180.

Thornton, E.M. Hypnotism, Hysteria, and Epilepsy: An Historical Synthesis [Hipnotismo, Histeria e Epilepsia: Uma Síntese Histórica] (London: Heinemann, 1976). 

©copyright 2001
Robert Todd Carroll

traduzido por
Ronaldo Cordeiro

Última atualização: 2002-04-02

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